David Mourão Ferreira Textos RETORNO  
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colocado em 20070731 de Manuel Bandeira
 

Ao cheiro de Pasárgada, que era o de vida livre, insubmissa mas em equilíbrio, vieram aqueles que sempre surgem ao odor do que desconhecem e supõem entender. 

Vieram, de narinas abertas; os olhos, porém, cerrados. Acamparam nos arredores. Os arredores de Pasárgada estão povoados de uma fauna impossível: animais diversos (e, entre eles, os rinocerontes da fábula) espalharam-se pelas colinas que eram verdejantes. Agora é desolador o aspecto que oferecem: negras, torcidas, e com árvores queimadas. Mas, nas copas das árvores, há recantos lindíssimos, com sofás estofados, onde meninas bordam sonetos. Cegas. Cegas, e com fácies de rinocerontes. 

E todos — meninas e animais— falam da cidade que não vêem.

Nos arredores de Pasárgada, organizaram partidos políticos. E os partidários de cada partido lançaram, no rio que vai ter a Pasárgada, poemas em forma de barcos de papel. Mas, a meio caminho e muito longe das portas de Pasárgada, os barcos de papel transformaram-se em rãs— e ficaram a coaxar nas margens lodosas.

 

Nos arredores de Pasárgada, instituíram prémios literários; realizaram jogos florais, festivais, congressos, assembleias e academias; e editaram colectâneas de poemas obrigados a mote e dedicados à memória dos poetas de Pasárgada que já não lhes faziam sombra.


Nos arredores de Pasárgada, há puritanos que metem nojo e dissolutos que causam pena. 
Julgaram uns que, para entrar em Pasárgada, teriam que ser puritanos, e tornaram-se puritanos; julgaram outros que teriam que ser dissolutos, e tornaram-se dissolutos. Ignoraram todos eles que, em Pasárgada, se é puro (que é o contrário de puritano) e natural (que é o contrário de dissoluto). Ignoraram ainda que, em Pasárgada, se é puro e natural— mas sem sequer se dar por isso.

Nos arredores de Pasárgada, há jornalistas, locutores, oradores, comentadores, mães-de-familia, tosses convulsas, filósofos que falam no Cosmos e pescadores de águas turvas; há barbas crescidas, caixas de pó-de-arroz, pontífices de Café, meninas com muita liberdade da família e polícia de costumes. 
Nos arredores de Pasárgada, todos eles dizem que são de Pasárgada.

Nos arredores de Pasárgada, a vida é insuportável.

Nos arredores de Pasárgada, há um príncipe dos poetas dos arredores de Pasárgada que diz que é príncipe dos poetas de Pasárgada.

Nos arredores de Pasárgada, todos morrem desesperados, com raiva e inveja de Pasárgada.

 

E nos arredores de Pasárgada, os animais que lá estavam acampados — rinocerontes, jornalistas, locutores, hipopótamos e papagaios — decidiram destruir Pasárgada. 

Fingindo que se não atendiam, todos se entenderam para a projectada destruição de Pasárgada. 

Na terra negra das colinas torcidas e queimadas, abriram-se vulcões: e surgiram bichos estranhos dê grandes bicos, e poetisas-irmãs-siamesas cacarejaram, em todos os suplementos literários, longos poemas confeccionados segundo a fórmula nova infalível de palavra-puxa-palavra. 

Frangos corados no espeto tomaram atitudes de falcões proféticos e berraram, em coro, coisas profundas. 

A mais singular foi esta; que a poesia não devia ser pessoal como uma escova de dentes. Adoptaram, então, uma escova de dentes colectiva — mas, como alguns deles tinham os dentes cariados, espalhou-se uma epidemia. 

Nessa altura, as poetisas-irmãs-siamesas engasgaram-se com umas palavras cada vez mais líricas — e foi um horror. Por um lado, elas a tossirem, por outro lado, os dentes deles a caírem com estrépito, e a provocarem sismos, e a inundarem as terras vizinhas de Pasárgada com regatos nauseabundos que esguichavam dos canais obturados. 

Nos arredores de Pasárgada, só há cadáveres: cadáveres que continuam a fazer versos e continuam a falarem de versos. 

São cadáveres convictos, respeitados pelas autoridades ou combatidos pelas autoridades; de qualquer modo, relacionados com as autoridades. Em Pasárgada, não há autoridades. 

 

Nos arredores de Pasárgada, os cadáveres possuem postos-de-rádio, recintos de diversões e órgãos da grande imprensa: — todas as coisas que a Pasárgada não fazem faltam nenhuma. 

E, apesar deste cerco de cadáveres cada vez mais cerrado, as últimas notícias de Pasárgada são satisfatórias: continua a andar-se de bicicleta, a fazer-se ginástica, a montar-se em burro brabo, a subir-se no pau de sebo e a tornar-se banhos de mar; permaneça a vida livre, insubmissa mas em equilíbrio, pura e natural, — com grande raiva dos cadáveres dos arredores de Pasárgada que já roeram, por despeito, as próprias falanges, falanginhas e falangetas.

 
     
  DAVID MOURÂO-FERREIRA     
     


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