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4  de Abril de 1956 Jesus        
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Coimbra 4 de Abril de 1956

Consolei-me. Não lho dei a entender, mas foi uma hora em cheio. O desembaraço com que me entrou pela porta dentro do consultório, agradou-me logo.

O que disse, depois, não se descreve. E quando, no fim da consulta, cobriu a retirada com as suas imunidades de artista lírica de Fornos de Algodres, deixei-a partir sem pagar, e fiquei a sorrir por dentro, maravilhado. Desdentada, precocemente envelhecida, vestida dum cetim suspeito, enfrentava a plateia do mundo com a mesma insolência duma estrela de primeira grandeza.

E eu, que no fundo tenho passado a vida a pedir desculpa de ser poeta, intimamente cioso da condição de artista, mas publicamente tímido de o parecer, só não lhe dei palmas no fim da representação para não desprestigiar a bata e os pergaminhos de Hipócrates.

Miguel Torga
4  de Abril de 1956
Diário VIII

 

 

     
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