Miguel Torga  Crónicas RETORNO   
Podre Registo Podre Americano
Coimbra, 10 de Julho de 1958
Diário VIII

 

       

Está tudo podre. E de madeira podre não se faz boa obra.
 
Construir o futuro com este material, seria trair a esperança dos que 
merecem tê-la. 

Toca-se numa consciência, e nunca nos soa a indignação, a cerne ofendido. 

É um som choco que se ouve, meio queixoso, meio cauteloso, meio gozoso, 
de toco furado.

O peto foi -se à floresta, picou, picou, abriu na polpa de cada tronco 
o indispensável caminho à infiltração deterioradora, e o tempo, paciente, 
encarregou-se do resto.

Deu latitude à gangrena progressiva, enquanto a disfarçava com o musgo 
da aparência.

E chegámos a isto: percorre-se a mata e não se encontra uma árvore 
que dê uma trave em condições.



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