Mia Couto  Textos RETORNO
Mar me Quer (extracto)  A Carta  
Editorial Caminho Mar me Quer
ISBN: 972-21-1374-7 Prenda de Anos
Colocado em 20020615

 

 

 

Lançamos o barco, sonhamos a viagem:
Quem viaja é sempre o mar 
(Dito do meu avô Celestiano)

Pois, lhe digo, minha Dona. É uma pena a senhora andar por aí fatigando 
seus olhos pelo mundo. Devia era, logo de manhã, passar um sonho pelo 
rosto. É isso o que impede o tempo e atrasa a ruga. Sabe o que faz? 
Estende-se aí na areia, oblonga-se deitadinha, estica a alma na diagonal. 
Depois, fica assim, caladita, rentinha ao chão, até sentir a terra se 
namorar de si. Digo-lhe Dona: quando ficamos calados, igual a uma pedra, 
acabamos por escutar os sotaques da terra. A senhora num certo momento, 
há-de ouvir um chão marinho, faz conta é um mar sob a pele do chão. 
Aproveita esse embalo, Dona Luarmina. Eu tiro boas vantagens desses 
silêncios submarinhos. São eles que me fazem adormecer ainda hoje. 
Sou criança dele, do mar.

- Lá criança, sim. Você há muito que esqueceu a idade.

- Sabe o que dava jeito? Era a gente os dois nos combinarmos, está 
  a perceber, Dona Luarmina?

- Ajuíze-se, Zeca.

- Faz conta somos o verbo e sujeito.

- Já conheço essa sua gramática...

- A senhora, minha boa Dona, nem sabe quanto enriquece minha retina.

Luarmina nem destroca resposta.. E com razão. Sou um quem, eu? Um caçador 
de peixe que nem tem a quem contar suas aventuras. É verdade, Dona, não 
posso nem dar lustro nas minhas mentiras. Será que são mentiras? Se eu, 
que não testemunhei o que eu próprio relato, acabo-me acreditando? 
O mar é que tem culpas - pois lá se esbatem os limites - tudo ali pode 
ser. No mar não há palavra, nem ninguém pede contas à verdade. Como 
dizia o velho se Celestiano: onde sempre é meio-dia, tudo é nocturno.

Volto à mulher, Dona Luarmina. Nunca ninguém foi tão vizinho. 
Porque ela quando não me está nas vistas está-me os sonhos. Sempre 
e sempre essa polposa e carnuda mulher. O rabo foi quem mais lhe 
cresceu, cresceu mais que as nádegas. Em tempos, ela acendeu prontidões 
masculinas. Mas agora, está apagada. Não para mim que me acendo em 
sua presença e ardo em sua ausência.

Mia Couto

 

 

     
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