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Cronicando      A Carta        
A Carta (extracto)    Mar me Quer      
Editorial Caminho                
Colocado em 20020305                 
 

 

 

A velha dobrou as pernas como se dobrasse os séculos. Ela sofria doença do chão, mais e de mais se deixando nos caídos. Amparava-se em poeiras, seria para se acostumar à cova, na subfície do mundo?

-- Me leia a carta.

Me entregava o papel marrotado, dobrado em mil sujidades. Era a carta do seu filho Ezequiel. Ele se longeara, de farda, cabelo no zero. A carta, ele a enviara fazia anos muito coçados. Sempre era a mesma, já eu lhe conhecia de memória, vírgula a vírgula.

-- Outra vez, mamã Cacilda?
 
- Sim, maistravez.

Sentei o papel sob os olhos, fingi acarinhar o desenho das letras. Quase nem se viam, suadas que estavam. Dormiam sob o lenço de Cacilda, desde que chegara a guerra. Essas letras cheiram a pólvora, me rodilham o coração. Era o dito da velha. Agora, passados tempos, aquele papel era a única prova do seu Ezequiel. Parecia que só pelo escrito, sempre mais desbotado, seu filho acedia à existência.

Nas primeiras vezes eu até me procedia à leitura, traduzindo a autêntica versão do pequeno soldado. Eram letras incertinhas, pareciam crianças saindo da formatura. Juntavam-se ali mais erros que palavras. O recheio nem era maior que o formato. Porque naquela escrita não havia nem linha de ternura. O soldado aprendera a guerra, desaprendendo o amor? Em Ezequiel, morrera o filho para nascer o tropeiro?

Nas primeiras leituras, meu coração muito se apertava em inventadas dedicatórias àquela mãe. Enquanto eu lia, eu espreitava o rosto da idosa senhora, tentando escutar uma ruga de tristeza. Nada. A velha se imovia, como se tivesse saudade da morte. Seu olhos não mencionavam nenhuma dor.

Eu tentava um alívio, desculpar o menino que não sobrevivera à farda. Nem se entristenha, mamã Cacilda. Também, maneira como carregaram esse menino para a tropa! Sem camisa, sem mala, sem notícia. Atirado para os fundos do camião como se faz às encomendas sem endereço.

-- Entenda, mamã Cacilda.

Mas ela já dormia, deitada em antiquíssima sombra. Ou mentia que dormia, debruçada na varanda da alma? Fingia a velha. Como o rio, num açude, se disfarça de lagoa. Depois ela regressava às pálpebras, me apressava.

-- Continua. Por que paraste?
 
Mia Couto

 

     
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