Mário Cláudio     Textos       RETORNO
Meu Porto   Meu Porto        
Publicações Dom Quixote   Peregrinação de Barnabé das Índias        
Junho de 2001                   
ISBN 972-20-1795-0                  

 

O Porto nasce e morre connosco, igual ao mais insatisfeito de quantos desejos nos visitaram. Quer isto dizer que se não esgota em topónimos, nem em cheiros ou paladares, nem em anedotas ou falas, nem naquilo a que mais usualmente o reduzem, uma teoria de neblinas, pronta a alimentar pintores de escassa e dessorada composição. É por isso que quem se fixar no casario da Ribeira, pensando ter aí detectado uma essência, cedo se dará conta de uma moradia do Bonfim, na qual Paris é mais Paris do que em França, presenciando uma festa de trufas servidas num serviço de Limoges, e de mulher de boá que recitam Baudelaire. É assim mesmo, não minto, e ainda que não respeitasse a verdade, preferindo a homenagem da ficção, seria isso também ambiguidade local.

Ocorre-me com frequência a frase de Hilaire Belloc, um desses escritores britânicos dos anos trinta arrebatados da nossa memória apesar de excelentes pelo efeito de sopro da Guerra de Trinta e Nove - Quarenta e Cinco. Caracteriza ele o Porto como urbe construída num abismo, o que me parece síntese de inteligência superior. Não se encontra aqui de facto o definível da planície, nem o claro-escuro da meridional idade. Enfrentámos pelo contrário uma espécie de amiba, ora ganhando interessantes contornos, ora desfazendo-se em caricaturas de si mesma, a provar que a vida é estar e não estar, e que o devaneio a ultrapassa em testemunho de realismo maior. Nos precipícios acontecem as cousas de que nos recordamos, que deixam em nós a mais profunda das impressões, e é em consequência disto que sempre suspeitei que haveria de agradar a Wagner a ideia de que por esta paisagem teriam estanciado os Nibelungos

 

Mário Cláudio
 

 

     
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