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Peregrinação de Barnabé das Índias   Meu Porto        
Publicações Dom Quixote 1997   Peregrinação de Barnabé das Índias        
ISBN: 972-20-936-2                
                     

 

 

Num sobressalto levantava-se Barnabé, e percorria o quarto onde os manos 
em cacho ressonavam, e abria o postigo para o frio, e aspirava o relento 
dos campos rasos de neblina. E de muito para além da curva do Varosa 
alcançava-o o choro do companheiro sacrificado, e atormentava-se ele na 
incerteza do que lhe competia, recitar sem descanso os versículos da Tora, 
acender todas as noites uma vela aos defuntos, calar o terror nos desvãos 
da alma insofrida. Enroscava-se como um gamo atingido por um chuço, gemia 
baixinho como um cachorro sem mama, ofegava na espera da luz que 
não discernia.

Descerrava-se-lhe às tantas a cama onde se estiraçava, a configurar uma 
fenda de penhascos, e rumorejava no fundo uma ribeira que fervia, e sobre 
ela pairavam os aviões e as gralhas. E escancarava-se ali a bocarra dos 
infernos, e guardavam o ingresso das cavernas uns quantos podengos de 
coleira de pregos, a babujar uma grossa espuma, e farejavam quem desem-
bocasse, esbugalhando os olhos amarelentos. Do abismo dos abismos uma 
baforada de enxofre e pez ascendia, e coalhava-se numa nuvem de invulgar 
espessura, numa nuvem divulgar espessura, e entreouviam-se gritos e 
prantos e um estrondo de cadeias enferrujadas. E uma a uma destacava-se 
a lamúria de cada réprobo, a clamar, "malditos os que vivem na inocência 
do perpétuo castigo", "vinde libertar-nos deste leito de tições", 
"afastai da nossa língua a tenaz em brasa do mafarricos" , "implorai ao 
exército dos arcanjos celestes que derrote as milícias Satanás". 
E consternava-se o mancebo, cravando as unhas nos braços, e pouco a pouco 
o medo se dissolvia, e apaziguava-se a casa, e era a manhã da verdade 
que serenamente ia rompendo.

Mário Cláudio

     
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