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Antigas e Novas Andanças do Demónio        
Edições 70                
Araraquara, Dezembo de 1961                
 

 

A Noite que Fora de Natal  (Extracto)
 

...
Na grande sala, iluminada por archotes fumarentos, Marco Semprónio passou devagar por entre os coxins dispersos, alçou cuidadosamente as pernas por sobre um escravo estendido e nu, que já devia estar morto, e reclinou-se, alargando o manto, ao lado do imperador. O olhar vagueou-lhe do rosto envelhecido do César para outro escravo também nu que, em frente deles, pendia, pelos pés, de um varão de ferro, com as pontas dos dedos a roçarem de leve o mármore do pavimento.

Mais uma vez Marco Semprónio verificou que um corpo de homem, assim suspenso e exangue, tinha uma beleza estranha, que não teria noutras circunstâncias, por belo que fosse. E aquele era-o. As imagens que haviam flutuado na noite, além do parapeito, configuravam-se agora na recordação daquele corpo vivo, vigoroso, jovem, tão submisso e hábil, e que ele próprio cedera ao imperador. Apurando a vista, examinou-o minuciosamente, e deteve os olhos no pequeno golpe no pescoço, de onde, escorrendo em fio pela cabeça acima — sorriu da inversão dos termos que a suspensão impunha —, o sangue pingava escuro para uma bacia de prata entre as mãos pendidas. Um instante apenas, meditou em porque esquecera a bacia, a não vira quando se sentara, mas às mãos, mais nada. Por certo as mãos pareciam vivas, e é que estavam ainda vivas. Sentiu um saboroso arrepio, uma saudade antecipada e agradável daquelas mãos que morriam. Suspirou.

O imperador dormia, respirando tranquilo, ridiculamente descomposto, e no chão estava o punhal sujo de sangue. Marco Semprónio curvou-se, apanhou o punhal, limpou-o na túnica de Tibério, pousou-o novamente no chão, e levantou-se.

Olhando de esguelha o imperador, bateu palmas. Dois escravos surgiram com uma pedra e uma corda, que amarraram aos pés do cadáver por cima do qual passara Marco Semprónio. 


E, carregando-o, saíram para o terraço. Marco Semprónio aguardou, de pé, sem olhar o imperador, que eles voltassem, e fê-los desaparecer com um gesto.

Tornou a sentar-se, meio recostado. E divertiu-se a examinar o imperador, que, pelos fugidios brilhos que entrevia nos seus olhos semicerrados, agora fingia dormir. Como estava velho, cheio de refegos no pescoço e no corpo! Como parecia um sileno emagrecido e exausto! Como as rugas e as peles pendidas das faces pareciam com o seu peso esticar mais a pele do crânio, que brilhava suada sob o cabelo ralo! Como o nariz parecia uma tromba ou um sexo, e como o sexo parecia um nariz!

Fingindo solicitude e carinho, desenvencilhou-se da sua capa, e com ela cobriu o imperador.

Tibério abriu os olhos, sorriu-lhe, acomodou-se melhor sob a capa. Os lábios finos e descaídos, que pareciam esvaziados do que haviam sido de carnudos, entreabriram-se.

—Obrigado, Marco Semprónio. Que seria de mim sem os teus cuidados?

Marco Semprónio baixou modestamente os olhos, e disse:

— Bem sabes, César, que a vida para mim não vale senão ao teu serviço.

— E não é fácil servir-me, não é fácil — e a voz tornou-se-lhe amarga para acrescentar: — Se até eu estou farto de servir-me! — e depois, com humor, continuou: — Mas também há quase setenta anos que me aturo e tu. Marco Semprónio, há dez apenas.

— É como se tivesse sido ontem.

— E é verdade, porque te estimo. Mas igualmente é verdade, porque, nesta ilha e neste palácio, tu e eu suprimimos o tempo. Graças a nós, o tempo não passa. Ou passa como as ondas sempre iguais e que são sempre outras com o mesmo mar. Não temos, nesta ilha, rios, Marco Semprónio. E os rios é que são o tempo que passa. Quando agora mandaste deitar ao mar o escravo cuja morte algum prazer me deu, tão pouco, eu claramente senti como aqui nem com a morte o tempo passa. 

Ou não passa precisamente porque é morte. Repara, Marco Semprónio, naquele sangue que pinga. É como se a vida se esgotasse na água que pinga na clepsidra, e a morte se esgotasse, e com ela o tempo, naquele sangue que escorre, gota a gota, de uma clepsidra humana que voltámos. Quando o sangue pulsa em nossas veias, ele é o tempo que passa. Quando escorre assim, é o tempo que fica.

— Mas Cesar, porque não abres as tuas veias, para que, com o teu sangue, o tempo acabe?

Os olhos de Tibério olharam ironicamente Marco Semprónio.

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Jorge de Sena
Araraquara, Dezembo de 1961

 

     
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