Estranhos Que Encontramos Crónicas   RETORNO  
João Espinho Estranhos

                                                                      

 

Estranhos Que Encontramos:

Nessa noite Gastão chegou mais cedo a casa.

Era hábito fazer imensos serões à volta dos papéis que o patrão lhe deixava para concluir. Tudo para acabar sempre na hora antes, resmungava o Gastão, imaginando pragas para deitar ao seu chefe.

Os papéis eram meia vida para Gastão. Já não podia viver sem eles e sonhava delírios de diálogos por cada requerimento que lhe passava pela frente. Tinha a sorte de se quedar sozinho em frente às epístolas, notas e ofícios e outras tantas folhas de papel que escondiam nomes e gentes que não conhecia. Uma sorte que lhe advinha do facto de o Sr. Augusto, o patrão, sair sempre por volta das seis da tarde, para fazer sabe-se lá o quê, pois nem mulher conseguira arranjar, nem uma irmã ou prima trouxera das beiras, quando decidira vir para a capital.
Gastão fazia o desenrolar da vida do Sr. Augusto à sua maneira, pensava-lhe os passos, certos, até uma casa qualquer que lhe oferecesse por mais barato um prato de sopa e um bife com qualquer coisa a cavalo. E depois? Ah, ele não deixaria de ir ver uma sessão desses filmes que não se devem ver, que ele não vê, mas que sabe que se vêem.
Mas Gastão não sabia, não tinha a certeza, tinha que lhe seguir os passos, desvendar-lhe a vida, essa a de um homem só!
Deixou-lhe o tempo suficiente, o de arrumar os seus papéis, afinal amanhã era outra vez dia e não havia nenhuma certidão que justificasse o serão.
Decidiu pois não ler nem escrevinhar e hoje também não passava pelo Bar da Alice onde bebia as suas algumas imperiais e ouvia os desatentos comentários sobre a política e o fado porque de futebol nem pensar pois não sabia quem marcava mais golos.
As ruas um caos aquela hora, a chuva que cai mas não cai e dá por si sem alcançar o rasto do Sr. Augusto.
Foge, apressa-se, espreita para o primeiro e mais outro lugar de comidas, não é possível que o homem já tenha ido para a sessão de cinemateca ainda por cima em jejum. Alcança mais uma e a seguinte e na outra esquina adivinha o Sr. Augusto em espera paciente que abra a bilheteira para a sessão das 7.
Que raios ali também não parava o homem.
Descontente por esta mais esta frustração diz agora não quero saber vou ao Bar da Alice e ali estarei até que comece a novela, aquela logo a seguir ao jantar, e assim encontrarei a Idalina já cansada das andanças do dia e dormitando e coitada, não lhe digo nada adormeço e ela já dorme.

Mas afinal hoje até podia ser o dia em que dissesse à Idalina que estava um tempo mesmo daqueles de Outono e que não apetece nada trabalhar e que raios, há tanto tempo que não jantava um dia da semana à mesa e provava o prato que esperava impaciente e frio e seria sempre o mesmo?
Antes tinha que saber as sondagens que a Alice lhe segredava pacientemente à volta da sua imperial que também era loira.
Ao abrir a porta arrota o hábito do álcool misturado com o cheiro do papel de dezenas quiçá centenas de folhas e manuscritos e as chaves ali ficam bem perto da saída na sala da entrada. Os passos repetem-se para a casa de banho onde não disfarça nunca disfarçou a aflição da bebida da loira.
E hoje penteou-se e lavou as mãos, afinal hoje jantava em casa na sua casa e na da sua Idalina.
Mas que mistério e que silêncio não reconhecia não estar a TV ligada e não ouvir aquelas histórias das vidas dos outros mas afinal chegara mais cedo e por isso ela está na cozinha, de certeza que sim, que o prato em cima da mesa hoje não espera.
Pareceu-lhe pela primeira vez a casa toda arrumada, / estaria sempre assim?, tudo tão no lugar, até os correios e a publicidade alinhados em espera não revista nem folheada.
Os passos hoje são precisos mas ruidosos, bolas havia que se anunciar estava aqui para presentear com a sua presença a sua Idalina.
Mas o cheiro que mistério não haver refogado seria que não havia cheiros nos refogados da Idalina, que mistério.


Em silêncio agitado e com o receio pega naquele pedaço de papel escrevinhado que vê-se que foi escrito com tempo e com sabedoria e o que diria aquele bilhete aquilo não era mistério a Idalina foi pois com certeza velar uma mãe ou de uma vizinha ou de quem seria, não importa.
As letras saltam e as linhas complicam-se e afinal o que é aquilo. Quer desistir mas falta-lhe a coragem de acreditar e relê a parcela que não acredita:
“... desta vida que me traz atormentada e sem poder respirar os prazeres da alegria e do amor que sejam teus. Sim porque dos teus papéis e das tuas imperiais e das tuas loiras respiro eu esse veneno. (...) E porque encontrei o carinho e o amor e reencontrei a alegria e o sorriso, deixo-te e parto com o Augusto que me declara as palavras de que foges e esqueceste”.
Trémulo, e porquê esta súbita hesitação, pega mais uma e outra vez naquele mais um papel e sai apressado com o guarda-chuva e precisa agora sim seguir os passos e de saber a vida desse homem que afinal quem diria não come sopa nem bife a cavalo nem cinemas de fim de tarde.

Desceu as escadas em passo de pressa e afinal não chovia.

O guarda chuva continuou fechado!


João Ferraz Espinho
Beja, 22 de Outubro de 2001


 

 

 


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