Faro Barros Textos RETORNO  
O Mar O Mar
em 20071121

 

 

A partir de um tema dado por Mário Cláudio numa oficina de escrita em Serralves:

"Descrever na primeira  pessoa as emoções ou/e a reacção de uma pessoa do interior que, aos 70 anos, vê pela primeira vez o Mar", 
Este é o texto: 

 

 

 

 
 

Por instantes o terror apodera-se de mim. Entro em pânico. O coração bate desalmadamente e a ansiedade é enorme.Mas não fujo. 
A pouco e pouco acalmo e recupero.

Caramba! Tanta água! Olho... e olho, abismado, mas não a vejo. Porque olhar é com os olhos - como dizia o meu professor da quarta classe. Ver é com a cabeça, meu burro! Vê se aprendes e lê e vê com atenção.

E aqui estou eu a olhar o mar, aos setenta, mas sem o ver. E é só ao fim de alguns minutos que saio do estupor em que estou e começo compreender.

A água, neste lugar em que me encontro, estende-se pela vista fora, até à lonjura, sem se ver terra do lado de lá. Não há montes nem terra pelo mar se que alonga.

Já li umas coisas sobre o mar, mas sem proveito para mim. Onde vivo, no Soajo, essa palavra não faz sentido. Rio sim. Rio traiçoeiro que já me levou um neto e a filha, deixando-me sozinho com a Margarida.

Já estive no Alentejo e fiquei espantado com as distâncias. No Soajo onde sempre vivi, as rochas e os montes não deixam lobrigar para mais longe que um par de léguas.

Mas no Alentejo, aquilo a que chamam searas, com aquela cor ocre, terra queimada, que não conheço no norte, com os sobreiros acachapados e as casas ao longe, pareciam-se com o eu imaginava e pensava ser o mar.

Mas aqui, Caramba! Tanta água! Parece um imenso campo alagado! Nunca vi tanta água a estender-se por uma extensão assim. E não há montanhas do lado de lá! Tudo água. E chama-se mar! Meu Deus! Como é diferente do que eu sabia!

E neste mar ondulante o movimento das ondas parece-se como as searas do Alentejo batidas pelo vento. Mas a cor é diferente: cinza azulada, esverdeada, escura, em constante mutação, de cambiantes diversos, faiscando de onde em onde, variando de dia para dia, como dizem.

Li alguns contos onde se fala do mar, mas a gente sem o ver imagina outra coisa. E não ouve este marulhar ritmado, estrondoso por vezes, imenso como o estrelado céu do Soajo às duas da noite, céu perante o qual nós nos estendemos pelo infinito.  

E este intenso cheiro a sal e a mais, que já não sei o que é, mas reconheço: Iodo parece...

Maresia chama-se no Maré Nostrum e no O Velho e o Mar... bons livros eram...

Sabe bem este ar; cheira a saúde, dá satisfação e vontade de não sei o quê... não fora esta desgraça...

O que eu não vivi, reconheço-o agora... Tanta água, meu Deus. E só agora o vejo, já no fim, tão tarde que é para mim.

Eia! Olha! Aquela ali..., um paredão de água que se acastela e corre rápida, despenhando-se de encontro às rochas. São ondas ou vagas como lhes chamam! Não parecem vagas não, bem determinadas que estão a rebentarem com tudo.

E então é para aqui que vêem dar os rios? Todos? De todo o mundo? E este mar não sobe e acaba por nos afogar a nós?!

E acolá aqueles braços lânguidos, flácidos a flutuar, que nunca os vi no rio da minha terra. Parecem desalentados num lento vaivém contínuo, cor de vinho que têm, molhados que estão.
Algas são! Deviam chamar-se salgas, que, neste mar, bem salgadas devem estar.

Este mar sozinho, como eu gostaria de o levar para junto às montanhas da minha terra! Seria feliz, amando-as como eu, doido inútil que parece ser, apaziguado nas suas fúrias vãs. Junto a elas, feliz e quedo, sem dúvida.

Desgraça foi a Margarida. Haveria de gostar de ver isto. Tanto mar! Que ela coitada teve azar. É o que acontece nas cidades, com tanto bulício. Dezoito anos distraídos a pensar sei lá no quê. Braga estuporada para os estudos. Moços filhos da puta, descuidados, inconscientes, com as mãos no volante.

Valeu-me o Henrique que me foi logo buscar ao Soajo e me trouxe até ao hospital.

Agora estou sozinho e choro. Ontem de manhã ainda havia esperança. Hoje já não.

Nesta praia ao fim da tarde, deserta, eu choro porque ela me falta. Porque ela morreu e tudo acabou.

Sinto-me à deriva. Não como a barca de 1488 - se bem me lembro - que quando açoitada pelas tormentas – e as montanhas de água eram monstruosas -, tinha um objectivo: vencer o mostrengo e chegar ao seu destino. E por isso lutava.

Sou, agora, mais como rolha de cortiça a flutuar, empurrada para um lado e para outro, indiferente, sem futuro, em mar que já nada me diz.

Curioso como os pés se enterram molhados nesta areia tão diferente da do rio. Rio onde eu batia todos com braçadas poderosas e rápidas.

Aqui, no cimo desta rocha, longe da água, fica a roupa a salvo. Em volta tudo deserto excepto pelas gaivotas, que não contam. Coloco os sapatos por cima; não me importa que molhem a roupa.

Estou nu. Olho o umbigo e o sexo; os pés já estão dentro da água. Nu como no princípio do ser, mas agora cheio de pelos. A água está fresca e já me molha as pernas e a barriga. Sinto frio no sexo, o que não é desagradável. Atiro-me para a frente e mergulho, como fazia no rio.

Volto à superfície e de braçada em braçada avanço para o largo. Muito mais fácil nadar aqui que no rio, porque a água é salgada.

Estas ondas, que não as há lá na terra, vencem-se com facilidade.

Lá para trás, distante, ainda consigo descortinar a praia, os rochedos e a roupa.

Já sinto algum frio mas não estou cansado. Devo poder nadar a direito mais uma hora ainda.

Penso que de manhã alguém certamente vai encontrar a roupa.


Porque é que estas gaivotas me acompanham?

 

Daqui a pouco despeço-me de mim, uma vez mais, e abraço Margarida que é mar.

 

Faro Barros

 
20071117  

     
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