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Paz

 

Sentia-se inspirado! Pode ser hoje!... Pensou.

Lá no fundo, a 60 metros de profundidade, sentia-se bem, e o gasómetro ainda tinha carboneto para mais uma hora.

Aumentou a chama e o negrume à sua volta afastou-se uns metros. A poeira que os colegas faziam, ao fundo, brilhou de novo. A silicose era ainda desconhecida em 1940.

Com o martelo continuou a fracturar a rocha; em seguida, com a pica, arrancou pedaços. Meia hora passou, a respiração custava um pouco, tanto pó que fazia. Mas sentia-se inspirado.

Num repente a ponta da pica soltou-se e viu: um bloco grande, com a face fracturada em brilhos de prata.
Arrancou-o ávido, com as mãos nuas. Sopesou-o: mais de três quilos. Eram três contos que aumentava aos 28 escudos do salário... Se o patrão não visse.

E não viu, de facto. A roupagem larga facilitava-lhe a manobra. Dentro das calças, entre as pernas, um saco pequeno, em serapilheira que a Maria cosera há meses, e já servira por mais de uma vez.

E agora era uma pedra negra como azeviche, linda de escultura, em pirâmide, do tamanho de um punho grande fechado, com uma das faces da fractura praticamente plana, cheia de brilhos negros e prateados.

À saída da mina, no fim do dia, o coração batia-lhe violentamente, pois tinha de passar pela revista. A boca seca e uma pontada nos rins, (que ele não sabia ser da adrenalina), aumentavam-lhe a ansiedade. Quando mergulhou a mão no saco, para tirar a bola da sorte, fez uma prece. A sorte, a bola branca, saiu-lhe.

Também! (contou depois aos amigos a vangloriar-se), mesmo que me saísse a bola preta o guarda de certo que não tinha a coragem de me apalpar os tomates.

Na cidade, no Porto, o Conde D. José jantava com a família. As sirenes começaram a uivar como sinal de bombardeamento eminente. D. José sentiu um arrepio heróico, como sempre que as ouvia. Tiras largas de papel castanho, coladas nas vidraças com goma-arábica, em diagonais cruzadas, garantiam, supunha-se, que ninguém ficaria ferido com os estilhaços de vidro, quando uma bomba caísse perto.

Mas D. José sabia que tudo não passava de mais uma sessão de treino e alarme na cidade, das muitas que davam o sal à vida, e serviam também para educar os filhos; estes, na Mocidade Portuguesa onde, com outros, se pensavam homens, agachando-se nas ruas atrás de sacos de areia que nos passeios protegiam as casas mais importantes; e onde simulavam a guerra recebendo e dando ordens conformes aos seus postos de comando.

E D. José estava seguro e calmo: pois sabia que o manhoso que os governava haveria de manter a neutralidade a todo o custo, vendendo-se a uns e a outros, embora as suas simpatias, como as dele, se inclinassem para os alemães.

Longe de Portugal, perto de Metz, François amanhava as terras.

E mais longe ainda, Karl, loiro, ariano (como só há pouco o descobrira com orgulho), andava em missões perto da fronteira.

E nenhum sabia que as linhas do destino os ligava!

No domingo Joaquim foi à Vila, e trocou a pedra por dinheiro no mercado negro (só lhe deram mil e quinhentos escudos).

Comprou dois piões novos, uma boneca de trapos, um lenço para a mulher e meia dúzia de cavacas de Arouca para adoçar a boca a todos e à mãe. O domingo foi alegre e brincalhão.

Nos arredores do Porto, numa das lavarias aí existentes, a pedra foi reduzida a grãos, quase pó. Primeiro triturada em britadores com mandibulas de aço manganés, depois calibrada em moinhos, até atingir a dimensão adequada. O minério assim condicionado foi colocado em sacos duplos (serapilheira por fora e pano por dentro - este para que o ouro negro não se escapulisse); sacos bem cosidos pelas Marias da terra.

Cada saco levava 50 kgs e com muitos outros seguiam ora para a Inglaterra ora para a Alemanha.

Umas semanas mais tarde, numa das fábricas da Krupp um judeu e um operário lançavam os sacos dentro de um forno com ferro líquido ao rubro. O aço resultante, duro e quebradiço, como convinha ao fabrico, projectava faúlhas para o alto, com grandes estampidos.

Alguns judeus (ainda poucos porque a vaga da grande decisão só viera mais tarde), alguns judeus agachados, ajudavam a verter o aço nos moldes para bombas.

François, perto de Metz, em França, amanhara as terras e chegara ao repouso do dia de que ele mais gostava: o jantar com a mulher e os filhos e a mãe velhota a quem ele estimava quase tanto como à mulher.

Sentaram-se à mesa, fizeram uma oração breve. O caldo quente na mesa, emanava um cheiro gorduroso, de carne, que os confortava mesmo antes de chegar à boca.

Karl, no alto, a 6,000 pés, chegara há instantes. Empurrou o manche com violência e o Stuka mergulhou a pique sobre o alvo (a fábrica). A velocidade aumentava de instante a instante e o piloto sentia-se leve e inebriado enquanto acertava os últimos detalhes.

Spitfires e Stukas enxameavam os ares.

Lá em baixo, na aldeia, as luzes já se tinham apagado há muito. Mas a Lua, amiga e traiçoeira, deixava ver bem a praça, as casas de lavoura e a fábrica, esta já meio destruída pelos raides anteriores.

Durante o mergulho Karl sabia que aqueles eram segundos em que podia ser atingido sem defesa. E os caças não o largavam...

Quando puxou o manche para sair do mergulho, durante uns segundos a visão escureceu-se e esvasiou-se-lhe o cérebro, como habitualmente. Tudo bem, mas tinha a sensação que premira o botão tarde demais e que a bomba não iria bater no alvo. Mas respirou de alívio, pois escapara.

François ainda ouviu o silvo da bomba e sentiu, adivinhou, que era chegado o momento. Quem lhes mandara a eles fazerem a fábrica tão perto das casas.!?

A explosão, tremenda, abalou as paredes da casa. Portas e janelas foram arremessadas com violência e as vidraças saltaram em estilhas. Uma parede caiu e o tecto desabou em parte.

Pedaços de aço duro e quebradiço, de arestas afiadas como facas ceifeiras irradiaram do local do impacto, em velocidade louca, à procura da Morte.

François esvaziou-se com o sopro. O filho mais velho, Filipe, tinha a perna esmagada e jazia no meio dos destroços. Fragmentos de aço esventraram Marcel em caudal vermelho.

Naquele pequeno lugar repetia-se Guérnica.

Escaparam Marie e a sogra.

Karl, agora de retorno, mais calmo, antegozava o amanhã, com licença para visitar a família.

Joaquim, em Portugal, continuava de pica e martelo nas mãos, no fundo escuro da mina, à procura de mais futuro, que D. José acumulava em riqueza.

E Karl, a pensar na mulher e nos filhos, distraiu-se por dois segundos: um spitfire, mais rápido e manobrável, com meio tonneau e meio looping, em manobra brusca, não lhe perdoou a distracção. Karl não chegou a casa.

Em 1953, treze anos depois, Joaquim morria de silicose. A guerra, aquela, mas só aquela, acabara havia anos.

A Maria labutou na costura até ao fim.

Descansem em Paz, na Graça do Senhor, que às vezes escreve direito por linhas muito tortas.

Amén!

 

Faro Barros
20040222

 

   


     
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