Faro Barros  Textos RETORNO  
Margarida  Margarida Pirâmides de Caral
20020506

 

 

 

Aquela cara que está fixa, imóvel, e que me fita e contempla do lado de lá 
do espelho, é o outro eu que me critica.

De caneta na mão, a pensar, (a velhice ainda não se atascou por dentro. Só 
por fora) é imagem aceitável, sem aqueles olhos desmesuradamente abertos e 
fixos, característicos dos velhos voltados para o último futuro.

Que pensas desse lado do espelho, José?! Que pensas?! Porque somos dois ou 
mais.E não só no espelho. O eu de cá e tu de lá, aparece-me também durante 
a vigília, naquela transição que precede o sono, acordado ainda, mas já a 
descortinar os sonhos... E dizes coisas, em voz alta, com as quais concordo, 
mas só por vezes.

Que não sabe nada (diz-me ele)... ela suspeita somente, e por vezes a verdade desvendada não é o pior. Devias dizer-lhe...
Não sei. Gosto dela?! Sim, em parte. Sempre calma... sempre cordata. Calma 
como as saias compridas que usa e aquelas botas escuras de que tanto gosta. 
Sempre calma!. Sempre púdica... até na cama. Pouco se mexe.
Isabel é um fogo! Como resistir-lhes?!
Será que não tenho direito a amar duas mulheres!? Porque não?! Gosto mais 
de uma que de outra...

A lucidez como a inteligência, não se compra, dizes. Mas não é assim: 
compra-se nas farmácias, nas livrarias, nas miradas que damos aqui e ali, 
na sala com linhas de cadeiras que partilhamos com desconhecidos, sentados 
no escuro, quando ouvimos Falstaff. E por ser escuro, como nos sonhos, e 
por estarmos atentos, o nosso sentimento expande-se e agudiza-se e fixa-se 
em novas parcelas cerebrais, em novas químicas, que aumentam a capacidade 
de ver, ouvir e sentir. E nova inteligência e lucidez se adquirem.

E é assim que agora ouço, escuto e percebo os ritmos do piano, que saem por 
uma caixa de plástico e vidro, a nova boceta de Pandora, fonte e torrente de 
imagens e sons (sem perfumes, ainda), por onde em catadupa se escoam os 
medos, desejos, esperanças, alienações, efémeras alegrias, misérias e 
frustrações das novas sociedades. E sou assim embalado por uma canção 
irlandesa... cheia de nostalgia e algas... nevoeiro, ar salgado e montanhas. 
E é passado, e já não sou, de lágrimas nos olhos. E o passado que não tive, 
e se foi, acomete-me. Mundos que não vivi... porque vim tarde, ou cedo mais.

E no alto dos céus, os cornos da lua a pontar para oriente, iluminam uma 
estrada em mar de luz difusa. E na crista da vaga, borrifada de espuma, 
Isabel cavalga a onda. E Isabel continua a ser a que imagino o que não é.

E para lá da babugem das ondas que se estendem pela praia acima, está Margarida, novamente, calma e púdica, com as formas molhadas, a flutuar no seu vestido comprido de que tanto gosta.


Faro Barros

 


     
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