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A Ciência terá Limites?
Actualizado em 20071106 A Ciência terá Limites?

 

Luís Miguel Bernardo, ilustre catedrático na Universidade do PORTO e autor do óptimo livro  “Histórias da Luz e das Cores”, tem um “blog” na Internet onde apresentou uma crónica sobre uma conferência da Gulbenkiam “A CIÊNCIA TERÁ LIMITES” a que assistiu.

Coloco aqui alguns comentários, na medida em que julgo não ter conseguido fazê-los lá, por demasiado extensos.

Quem quiser ver o texto que comento, daquele meu amigo, pode acedê-lo por:

http://oholoscopio.blogspot.com/

 

 

Como não assisti à tal conferência "A Ciência terá limites?" mas de um modo geral gosto da sua intervenção e do desafio que a questão provoca, gostaria de clarificar alguns pontos que me suscitam dúvidas. E porque discordo mesmo de alguns conforme segue.

Mas primeiro é preciso saber de que ciência se tratava nessa conferência:

do "conjunto de conhecimentos e pesquisas no sentido de fixar as leis que regem todos os fenómenos" – opostos   à Arte que se apoia, esta, predomi- nantemente na imaginação e no conhecimento empírico?
"Conjunto de conhecimentos explicados, relacionados e sistematizados", diferente do conhecimento vulgar, empírico, este sem busca da correlação de causa e efeito.

ou a descoberta de novos processos e caminhos que levam o nosso conhecimento mais longe e acabam por funcionar como telextensões de nós mesmos (humanidade), como novos braços, ouvidos e olhos? E é com eles que estamos a explorar e a conhecer Marte, por exemplo.

Vamos admitir, na dúvida, que se tratava mesmo de uma simbiose das duas concepções e nada, mesmo nada, de ciências ocultas ou filosóficas.

Sendo assim não é, para mim, a ciência a "única forma de conhecimento válido" como cita.

Quando conheço que caio quando salto, ou que tenho fome quando não como, estou de posse de conhecimentos válidos, adquiridos empiricamente; obtidos por informação de terceiros ou à própria custa, não por ciência, embora esta os explique há já alguns anos.

Também quanto à afirmação "haverá ciência enquanto houver homens e mistérios a desvendar" coloco reticências.

Num Universo imenso, como conhecemos hoje, sempre turbulento, mistérios a desvendar haverá sempre, pelos milénios vindouros, tenha a humanidade o bom senso e a capacidade de se conservar por cá.
Não faz sentido pretendermos em 2007 adivinhar, prever, se os haverá sempre ou não. Não é prático e é demasiado atrevido.

Mas será preciso o Homem? A evolução existente, e possível no futuro, de outros seres vivos, permite-nos esta arrogância de nos considerarmos os únicos, ad eternum, com pensamento articulado e racional? Duvido.

A ciência das abelhas quando constroem as células em secções hexagonais (com grande economia de cera) não se deve atribuir a puro automatismo genético ou acaso.
Não será resultado de lucubrações neurónicas, mas algo se passa mais afim a ciência que muita actividade humana.

É de crer que certas actividades e conhecimentos que diversos seres vivos desempenham e possuem são ciência certa adquirida; somente que a nossa ciência, a humana, ainda não foi capaz de desvendar como sucedeu, qual a causa, porquanto o Darwinismo não explica tudo.

Também discordo de que "a real ou virtual incapacidade da ciência para clarificar os mistérios da natureza..." se deva às razões que aponta.

É facto sabido (conhecimento empírico?), que cada descoberta científica dá origem, ou despoleta, duas ou mais descobertas científicas que se apoiam nela.

E que muitas vezes, senão sempre, duas ou mais se juntam para dar descoberta a novos caminhos de ciência e desenvolvimento. Porque, não nos esqueçamos, o conhecimento científico empurra para a frente os descobridores e aporta-os a novos horizontes.

Daí ter a ciência a fórmula de desenvolvimento exponencial, na qual cada mistério tem de aguardar a sua vez, no tempo, para ser desvendado.

Reparemos, para exemplo, como só depois de descobertos a fissão do átomo, os motores atómicos – esqueçamos  a nódoa negra da bomba atómica – as naves espaciais e, em paralelo, a técnica informática da comunicação e robotização, foi possível começarmos a exploração espacial e a conhecer Marte em detalhe.

Vejam-se também as consequências do descobrimento do ADN ou do Método do Carbono 14 e o salto (que estes dois passos permitiram) que se deu para deslindar o passado arqueológico e desenvolvimento da técnica forense.

Os meios técnicos e tecnológicos são supridos pelas descobertas que se vão fazendo. E novas áreas de estudo vão aparecendo, à medida que se avança.

Os cientistas são recolectores de verdades soltas, de pedras soltas do conhecimento.

Recolectores de verdades escondidas em monte de acontecimentos temporais (temporais, repito), umas debaixo das outras, como naquelas imagens fabulosas do filme “les Glaneurs et la Glaneuse ” de Agnès Varda, exibido no Porto em 2001.  

De resto concordo consigo, meu caro amigo.

 

Faro Barros
20071106

 


     
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