Faro Barros  Poesia RETORNO
Sete Anos  Sete Anos
actualizado em 20070814

Sete anos passou Adão, 
deitado de costas 
no chão, 
inerte,
olhos fechados…

E durante sete anos pensou,
solerte,
que estava no céu,
num limbo,
o seu.

 

Ao fim sete anos
abriu os olhos,
Adão.

Olhou e viu
flores e folhas nas árvores,
borboletas multicores
o Sol a brilhar,
andorinhas a voar
com neblina no céu;

e havia vapores
e olores
com aromas
de todas as cores,
cravos e
cavalos bravos,
touros negros, 
puros,
ónagros,
e tudo era novidade.

 

Pensou Adão
que estava no paraíso,
o que não era verdade.
Ideia de pouco siso!
P’ra quem é  pouca
A idade.

 

E ao fim de sete anos 
olhou  Adão de través
para si, a esmo...
E olhou e viu,
lá longe,
ao fundo de si mesmo,
os dedos dos pés.

E durante sete anos mirou,
com afinco,
todos os dedos
do pé esquerdo,
que eram cinco.

Desde o mendinho,
o junior,
até chegar ao senior,
o dedão;

e viu que cada seguinte era maior...
e a todos olhou com atenção.

Contente
contou cinco
até chegar ao fim.
Fez o sinal da cruz
como um serafim
e ficou ciente
e riu-se.

 

E nos sete anos seguintes
também olhou,
a eito,
os dedos do pé direito,
que eram iguais aos que vira antes.

Espelho eu sou,
foi o que pensou…
E ficou espantado, abismado,
verificando que eram dez
ao todo.

 

E ao fim de sete anos
olhou Adão
de novo a esmo,
um pouco mais para cima
de si mesmo
e viu o sexo.

E considerou que eram três.
E achou que as duas bolas
e o pauzinho
deviam servir para alguma coisa.

 

E perguntou a DEUS, que…
Silencioso,
não lhe deu  recado.
Mas cioso,
Recatado,
pôs Eva a seu lado  

Ainda não sabia,
Adão,
que, com um pauzinho
e um buraquinho
fundo,
Deus tinha criado
toda a confusão
do Mundo.

 

E durante sete anos
amou Eva, Adão,
ficando cansado
daquela função;
mas também do trabalho
que tinha
com todo o pirralho
que aparecia
como por magia.

 

Mas Eva ficava muito contente
de cada vez,
porque, insinuante,
ondulante,
a serpente
punha o Adão
a trincar-lhe a maçã.

E assim passaram mais sete anos vezes sete,
que tantos são os da virilidade
na maturidade.

 

E Adão chegou aos setenta,
muito novo ainda
na idade que tinha.  

E foi então, tão tarde...
Já tão tarde!
Que o Senhor lhe ofereceu
pela mão de uma multinacional
uma oferta colossal  

Uns latex
de todas as cores
formas e sabores,
que eliminavam
toda a pretensa
nascença
e branqueavam
a consciência

 

E livre de preocupações,
agora,
amou também
uma pastora
sedutora:
Fátima.  

E também a Fé,
a Esperança
e a Caridade
e algumas Conceições
cheias de seduções.  

e agradeceu a Deus sete vezes,
porque cada uma parecia mais pura que a anterior.

 

Mas era mais um engano
que lhe tinha posto o Senhor
no caminho do amor!

 

Sete anos se passaram e
Adão mirou-se
um pouco mais para cima,
para o centro de si mesmo.
E fitou o umbigo,
o centro cósmico,
abrigo,
amigo,
onde se quedou mais sete anos,
com carinho,
a cogitar
sozinho
sobre a natureza do ser.

 

Nos sete anos seguintes
mirou o zénite
e olhou e viu
milhões de astros.

Viu planetas;
procurou Marte;
achou cometas;
os aneís de Saturno
encantaram-no...

 

E foi dest’arte
que encarou o infinito,
abordou o Universo
infindo,
inaudito,
e fez uns versos
escreveu lérias
e cantos tersos.  

Rasgou a mente,
a esmo,
em cada pensamento,
chegando finalmente
ao cume de si mesmo.

 

Nos sete anos finais
amigou-se com a História;
a História
de linha divinais.

Com ela se deitou
em longas bacanais
de grandes epopeias.

E do passado dela
conheceu as teias.  

Soube da Odisseia...
Dos Lusíadas a gesta
e a glória.
Navegou com Ulisses,
amou Helena
a de Troia,
deitou-se com Círce,
decifrou com Édipo
o enigma da Esfinge,
salvou-se com o fio
de Ariadne
do labirinto do Minotauro...

Voou com Ícaro,
e com Orestes atinge
o cúmulo da tragédia.

 

Mas logo em seguida
a História
conta-lhe o lado negro
da vida:

tiranos loucos
insanos
em milhares de anos.  

Ouviu de Medeia 
a morte dos filhos...
A odisseia
alheia.

Dos negros
a escravatura,
a tortura...

Os autos-de-fé,
feitos na boa-fé,
com os corpos
a contorcerem - se
em chamas de dores
nos últimos estertores.  

O chumbo derretido
vertido
à larga
pelas goelas abaixo.  

A pena de talião;
os empalados,
vencidos,
com os membros decepados
e os corpos esquartejados.

 

A lança a trespassar Jesus
na cruz;
e o sangue a jorrar,
no altar,
para os cálices litúrgicos
de padres pedófilos
e lúbricos...  

As crianças abusadas
em salas isoladas
em atónitos silêncios.  

Os genocídios
nas câmaras de gás,
a morte em vagas
largas
em Auschwitz;

os gritos de horror,
os ódios,
e os churrascos humanos,
os óleos
nos fornos crematórios.  

A bomba, atómica
a de “Hiroshima Mon amour”.

E os esfolados vivos
com a pele a soltar-se
em pedaços
largos;
e tem carne agarrada
com gordura a pingar,
fervente,
em lagos de sangue
rubro e quente.

 

Em Dresden
os tapetes de bombas
vastos, largos,
a dizimarem
e a arrasarem
tudo.

As bombas
em Bagdhad:
tecnológicas,
psicológicas,
cirúrgicas,
com largos
danos colaterais.  

E agora as vítimas
feitas algozes
em Israel.

Agora eles,
os eleitos,
velozes
a sacrificar inocentes
em Canã
também.  

 

E foi então
que Adão
olhou e viu
que era tarde
e já crepúsculo
e o Sol baixara
no horizonte  

Abraçou os filhos
e chorou em berros,
lamentosos urros,
sobre aqueles erros.

 

Mas pensou em Deus
e de novo riu
com um modo amargo
de um modo largo.

E foi então que,
por que era tarde
a vida finda
e tudo inútil
e fútil
que desistiu
e disse:

“puta que o pariu.”

Adão
então
fechou os olhos
e lançou-se ao mar
sem saber nadar.

Dizem ainda que… 

mas essa é outra história

 

Faro Barros
20060728

                  

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