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O nosso Século Margarida
Actualizado em 20070719 O Nosso Século
 

 


Poucos imaginam quão espantoso foi o século XX em que vivemos.

Foi um período, século excepcional, durante o qual tivemos o privilégio de assistir a transformações mundiais, num curto espaço de tempo, como nunca tinha acontecido em milhares de anos anteriores.

Passemos uma rápida lupa sobre o que aconteceu; relembremos:

O homo sapiens deve ter nascido, segundo a ciência há 60,000 anos.

Segundo a Bíblia Adão, o primeiro, viveu 930 anos, a que se seguiram Set, Henoc, Matusalém, Noé,Lamec e muitos outros por milhares de anos.

Só há cerca de 5,000 anos, a humanidade larga as pedras e os paus, alguns deixam os rebanhos, e chega-se à idade do ferro com os descendentes de Tubal.

Foram precisos mais uns milhares de anos (cerca de 7,000) para se atingir a era industrial das rudimentares máquinas a vapor e dos teares mecânicos que ainda chegámos a conhecer.

E estamos em 1900, século XX.

É então, no nosso século que, apenas em 100 anos (o período de uma vida) que o homem e mulher (a humanidade), com engenho, arte, e muita miséria e manha, conseguem coisas prodigiosas.

Foi como se um cataclismo nos tivesse catapultado para um idade de ouro (ou que esperamos venha a ser uma idade de ouro, apesar dos descalabros a que assistimos).

Nos transportes

Durante infindos tempos o homem desejou voar, sem sucesso; os anseios de voo vêm de longa data. Mas passaram-se milhares de anos desde a mitológica tentativa de Ícaro (cerca de 690 A .C.), até que fosse possível o primeiro curto voo motorizado ( 36 metros 12s em 1903 pelos irmãos Wright).

E foi logo em seguida (só 60 anos após o começo - 1969) que se conseguia uma histórica alunagem.

No solo, em 1908 aparece o Ford T (industrializado) e o taylorismo.

De 1940 a 1950 os automóveis eram poucos na cidade a circularem conjuntamente com os carros de bois; e eu via todos os operários a irem a pé (quando muito alguns, poucos, de bicicleta) para o local de trabalho; marmita para o almoço dependurada na mão.

Entretanto o automóvel vulgariza-se, todos o usam (ainda bem); a bicicleta quase desaparece.

Em 1970 automóvel Blue-Flame atinge 800 km/h em terra.


Na Ciência

Foi já nosso século que Einstein desenvolveu a teoria da relatividade, e assustado com a iniciativa de Hitler à procura da Bomba definitiva, leva o Presidente dos Estados Unidos a entrar na corrida.

Agora, apenas um século depois da primeira cisão de um átomo por Rutherford (1871-1932), as centrais atómicas e a tecnologia associada são factos consumados.

É de lamentar a Bomba de Hiroshima e outras más aplicações que tem havido da ciência, mas isso deve-se somente à natureza mista do ser humano (malévola e genial) a oscilar entre Leonardo da Vinci, Bach, Mozart e o estrangulador de Bóston ou os nossos pedófilos caseiros.

Porque as barbaridades em massa crescem à medida que a ciência e a tecnologia avançam: Auschwitz, a Bomba de Hiroshima, Uganda...

Em 1867 nasce Marie Curie (1867 – 1934) e os estudos sobre os raios X e raios gama começam a intensificar-se. De um modo geral desenvolve-se a investigação sobre todo o tipo de ondas.

Na Medicina

Em cem anos a medicina já não dispensa o TAC, os ultra-sons, os raios-X, etc.
São também já do nosso século a substituição de corações e outros órgãos deteriorados ou mal conformados.  

Costumo dizer, por graça, ateu que sou, que os médicos vivem à custa dos erros dos Deuses.

A análise do ADN lança novos meios de investigação criminal e antropológica. Já foi possível verificar a falsa pretensão de quem se dizia ser Anastásia Romanoff.

O estudo do genoma humano veio também confirmar, de certa forma, que diferimos pouco dos macacos, como Darwin propusera.  
Algo mais da mosca, mas não tanto como julgávamos e desejávamos.

Na Comunicações

Nas comunicações, sonoras e visuais, entre os humanos, tudo começou talvez, há milénios, pelas fogueiras de fumo e pelos tambores.

Mas Bell abre um novo ciclo em 1876 com a invenção do telefone. O salto, de então, para os telemóveis e formas de comunicação SMS, 3G, televisão interactiva, Internet , etc. etc., é fenomenal.

Só nos preocupam as contas mensais do telemóvel, a subida do nível de iliteracia colectiva, e o abastardamento da língua portuguesa, que a nova geração K (a do k keres bj para beijinhos) acabará por impor, para desgosto de quase todos nós que adoramos a língua portuguesa e nos deliciamos com Fernando Pessoa, Mia Couto, Eugénio de Andrade.

São ainda desenvolvimentos do nosso tempo, nas comunicações, o radar, a rádio e a televisão só aparecida em público em 1925 (USA e Inglaterra).

Esta, a televisão, a grande culpada de muita asneira e borrada em que se transforma a vida de muita gente (não só em Portugal) é agora interactiva, filha do Big-Brother, irmã dos Reality-Shows com uma série de figuras das séries cor-de-rosa e os inefáveis comentários e livros do Marcelo e a cómica quadratura do circo (digo Círculo).

Nos Computadores

Na Informática, em 1943 aparece o primeiro computador da nossa era (o ENIAC).

Em 1970 o meu primeiro computador, uma HP – Hewlett Packard, só tinha 256 kb de memória e trabalhava com cassetes, sem disco; custou na altura 600 contos.

Nessa época um Volvo Amazona 2,000 cc (uma brasa) custava menos de 100 contos.

Hoje, 30 anos depois, em casa, 2 mb de memória virtual e discos de 400 Gb são correntes num computador de custo à volta de 100 contos;  um automóvel equivalente ao que citei acima custa cerca de 5,000 contos.

E estamos ainda na idade da pedra lascada dos computadores.

No Campo da Imagens

Na Fotografia, em 1930, os caixotes da Kodak eram o último grito. Seis fotos 6 x 9 cm em película – fotografia analógica.

Agora, na era digital (80 anos depois) uma Nikon D2X ocupa 37 mb com uma única foto e pode guardar mil fotos numa só memória de 2 Gb (memória que pesa umas gramas) e tira, em rajada, 8 fotos por segundo.

A Arte torna-se filosófica e psicanalítica. Picasso, Marcel Duchamp (e outros) questionam-nos e nasce o Cubismo e o Ready Made.

Pollock leva a pintura gestual (expressionismo abstracto) aos píncaros da glória, apresentando uma nova força interior do Homem, subconsciente, já abordada por Freud e Young. Nasce a “Drip Painture”.  

Na Filosofia

Ao conceito essencialista, da natureza humana, contrapõe Sartre o existencialismo e acontece-nos Maio de 68, Woodstock e, felizmente, Juliette Greco.

Deus não é posto em questão pela Igreja mas, segundo a VISÂO 20060601, é questionado pelo Papa actual que diz: Porquê Senhor, permaneceste calado!?... Onde estavas...!? quando aconteceu Auschwitz...?

É ainda no nosso tempo e século que se começam a definir os direitos do ser humano e, recentemente, também os direitos dos animais.

E Damásio (o nosso Damásio) começa a desmontar em partes elementares o funcionamento do cérebro, desvenda-nos os “Erros de Descartes” que nos levam a pensar em deuses e não em Deus.

No Estudo do Cosmos

Não há dúvida que hoje em dia tudo leva a crer que pode haver outros mundos habitados no Universo. A probabilidade estatística de sermos o único planeta habitado, em biliões de galáxias como a nossa, é demasiado pequena para a aceitarmos como solução possível para o nosso anseio de sabermos quem somos.

Tempos extraordinários são estes em que vivemos.  

A Concluir

No meu tempo, ainda estudávamos com a noção de que o que aprendíamos era para sempre: como construir uma chaminé em blocos; como construir uma caldeira; a locomotiva a vapor... etc. Que as tabelas de logaritmos estavam para ficar, que os ábacos eram ícones eternos da ciência.

Mas sabemos agora que a ciência e a tecnologia avançam em catadupa, numa forma exponencial, qual onda gigantesca de maremoto que faz saltar tudo à sua passagem, afogando-nos o passado e lançando-nos para o futuro de modo incontrolado.

Somos inundados por todos os lados de informação de base aleatória, não coordenada. Quase não resta tempo para se pensar.

Entra-se numa livraria e verifica-se que toda a gente escreveu um livro. São livros às centenas, novos, todos os meses. Não há orçamento nem cabeça que aguente.

 

E agora? para o futuro? quem pode prever? Que fazer?

Não tenho conselhos a dar. Mas faço uma sugestão:

Pelo menos conservem em computador o essencial (e o supérfluo também) da memória da vossa vida e da vossa família. Os nomes, as datas, os escritos, as vozes, as fotos, os vídeos... os acontecimentos.

A pena que eu tenho de não ter perguntado a meus pais e avós, em devido tempo, as coisas que gostaria de deixar para a minha neta ou bisnetos futuros... ou recordar agora... eu... que tenho uma péssima memória.

 

Registo o que posso. É fácil, é barato, e só consome tempo – o que me resta.  

Pode ser que daqui a 50 ou 100 anos, um descendente esteja interessado em saber como era a vida do nosso tempo.  

Faro Barros

 


     
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