Citações várias Poesia RETORNO  
Pasárgada Novidades Pasárgada Seguinte
colocado em 20070731

de Manuel Bandeira

Na literatura Brasileira, Manuel Bandeira (1886-1968), consagrou e divulgou o nome Pasárgada como um lugar ironicamente ideal, em: "Vou-me embora pra Pasárgada" tornando-se, desde então, um ícone de uma sociedade livre, feliz, soberana e independente.

 

A sua importância no imaginário brasileiro, a actualização irónica, poética e plena de boas intenções de conversão de paraísos antigos para a modernidade urbana, levaram-me a tornar acessíveis, aos internautas, além do poema de Manuel Bandeira um texto de David Mourão Ferreira.

 

  Na origem, na antiguidade, era Pasárgada a cidade que Ciro fundou como capital, onde construiu belíssimos palácios e estabeleceu um estilo de vida diferente para a época.

 

 
  Actualmente é também uma micro nação intelectual, virtual (via Internet) percursora do que é hoje a “Second Life”.

 

 
A partir de Manuel Bandeira as referências a Pasárgada multiplicaram-se no Brasil. 
Há centenas de páginas na Internet só com a chamada do nome “Pasárgada”.

 

Hotéis, pousadas, “Spas”, bibliotecas, restaurantes, comunidades, grupos de passeio e aventura, pululam no Brasil, todos apelando para a concretização do sonho de uma sociedade feliz, mais justa, fraterna, libertária e democrática.

 

De uma das inúmeras pousadas retiramos:
“A Pousada Pasàrgada, por exemplo. Rodeada por 2.000 m² de lindo jardim, onde beija-flores vem colher o néctar e os mais variados pássaros entoar seu canto, a pousada tem um subtil envolvimento com a literatura, seja em histórias, seja em homenagens.”

 

Não faltam, na Internet, convites para que se torne um cidadão de Pasàrgada.

 

Transcrevo ainda da Internet:
“Sérgio Buarque de Hollanda, no clássico "Raízes do Brasil", na tentativa de explicar o porquê “de certas posições políticas daquele momento”, como disse bem António Cândido em seu prefácio para a 15ª edição da obra, recorreu a algumas imagens importantes, sobretudo quando se deseja remontar aos “áureos” tempos do Brasil-Colónia, em que a terra recém-descoberta, apesar do descaso dos descobridores, se configurava como um perfeito arquétipo do paraíso celeste na terra, “onde se plantando, tudo dá”, conforme carta de Pêro Vaz de Caminha.

 

Sérgio, entre outras coisas, diz que para aqueles que vivem em um Paraíso “o ideal será colher os frutos sem plantar a árvore”, vivendo em projectos ilimitados de tempos vastos e abundantes, ignorando barreiras. 
Não é por acaso que mesmo inconscientemente, a ideia do Paraíso perpassa todo o inventário literário desde Camões e causas sequelas irreversíveis, sobretudo no tocante à literatura modernista de primeira geração no Brasil.

No episódio da Ilha dos Amores, canto X de Os Lusíadas, temos uma leitura interessante quando se considera a Ilha como o espaço do desejo, do proibido, do erotismo e finalmente, da utopia. 
“Esta natureza edênica, preparada para servir de habitação às deusas, manifesta-se como constante projecto humano de encontrar a terra prometida, réplica do paraíso perdido, único local passível de reconciliação do homem com o cosmo”, diz Maria Thereza Alves, em Topofilía e Topocrítica na Paisagem Ideal da Ilha dos Amores.

 

Compreendendo que a ilha, enquanto acidente geográfico, é uma pequena porção de terra cercada por água de todos os lados, dois elementos a principio tão distantes, logo por analogia entendemos também como a ilha dos amores em especial, passa a ser então o espaço da comunhão, do convívio de dois mundos, até então incomunicáveis. “Sendo assim, o já conhecido – Portugal – e o que, pela posse, será conhecido – ilha – são espaços louvados tendo como dominância sémica o elemento ‘terra', oposto ao elemento “água”, dominância sémica do espaço hostil [mar]”, continua Maria Thereza.

 

A ilha torna-se também o espaço do refúgio, do exílio, ainda que esse exílio tenha um sentido diferente do que conhecemos hoje.

 

 Talvez seja justamente isso que aproxime a Ilha dos Amores de Camões à Pasárgada do nosso querido Manuel Bandeira: “(...) e como farei ginástica, andarei de bicicleta, montarei em burro brabo, subirei no pau-de-sebo, tomarei banhos de mar”, no clássico “ Vou-me Embora pra Pasàrgada”.

 

Ainda que Pasárgada seja a metáfora de um exílio existencial em que o sujeito-enunciador deseja abandonar o convívio social, ninguém desconfia de que também não seja uma ilha, um lugar paradisíaco, com todos os atributos de um lugar perfeito.

 

É importante ressaltar que existe nessa comparação dois sentidos de paraíso distintos:

No primeiro, temos um paraíso que se configura numa premiação, indo de encontro inclusive aos valores medievais, tornando a própria ilha um arquétipo do paraíso celeste: “encrespa a água serena / e despertava os lírios e jasmins”, descreve Camões.

 

No segundo, temos um paraíso que é condizente com a estética modernista, quando propõe retomar os valores românticos para reler conceitos importantes como o de nacionalidade.

 

Neste momento, a palavra paraíso toma o sentido de “Fugare Urbem”, fuga do urbano, fuga da realidade, proporcionando ao sujeito-enunciador abandonar o convívio de seus entes e de instituições sociais como família, casamento e amigos. “Em Pasárgada (...) é outra civilização”, já diz Bandeira. “



     
RETORNO  
à Página anterior
               
Acessos Alertas Apoios Crónicas Desenhos Dicas Esculturas
  Fotografia Fotos  Informática Pintura Poesia Português Quem Somos Sugestões Textos