Faro Barros RETORNO
em 20080425 Cinzas

 

Enclavinhava os dedos da mão na ranhura da fachada do prédio; que não era bem uma ranhura, mais um jornal espesso dobrado ao meio  onde metia as unhas com desespero. Já devia estar a mais de cem metros de altura.  Tinha medo e sentia formigueiro na planta dos pés.

Estava cansado, muito cansado; a vontade de se desprender e deixar cair era muita. Os outros ao lado, a avançarem como ele por aquele arranha-céus de vidro, não parecia terem medo. Alguns mais rápidos, mais acima, já se metiam pela janela aberta que era o destino de todos os que lá chegassem.

Chegou finalmente com a ajuda dos que já aí estavam, mas a sensação de medo, receio indefinido, permanecia-lhe agarrada aos pés.

Puxaram-no pelos ombros e não sabia onde estava. Teria morrido? Sentia-se só no meio de tantos. Eram todos personagens móveis, indefinidas, não personalizadas, do seu mundo sem dúvida, mas não identificáveis. Outros, muitos outros, continuavam a trepar custosamente, como ele o tinha feito e entravam também com dificuldades para dentro  daquela sala indecifrável.

Acordou angustiado, com a sensação de que tinha visto e encarado a morte sob outro prisma: uma nova visão de fim vida, talvez despoletada pela conversa que tivera nesse dia com Miguel, amigo de velha data, duro e áspero com uma lixa.
Inteligente, ligando com facilidade o cérebro à língua, atento ao mundo, mas principalmente a si mesmo (o que nem sempre é defeito) vai despejando pela boca afora quantidade e diversidade de dados e ideias (algumas velhas, outras não) que o leva a escutá-lo com amizade e benevolência, senão com algum despeito por estar bastante à frente (de alguns, sublinho).

Já não o via há anos (ou meses?) e fora uma coincidência encontrá-lo, a ele, àquela hora. Viúvo há pouco tempo, acabou pôr contar-lhe o que o preocupava: o que fazer de si após morrer.

Já tinha escolhido: queria ser incinerado; solução limpa, definitiva, sem o terror de acordar no túmulo. Sim porque os médicos erram, apesar dos extraordinários avanços da ciência médica.

Já não se usam as sinetas accionáveis de dentro  dos mausoléus, para que o coveiro, em deambulação nocturna (obrigatória?) pudesse acudir ao aterrorizado funâmbulo retornado do sarcófago ao mundo dos viventes, em que o tinham encerrado por engano. Ele, o morto já não morto, agora de novo vivo e apto para voltar ao dia a dia de uma vida inútil feita entre o escritório e a casa, que pouco lhe dizia a ele, nem à cara-metade (finada?), mas vida matizada uma vez ao ano, por férias nas Caraíbas ou uma escapada ao Algarve.

- E as cinzas? Não é uma maçada, uma tortura psicológica ter uma urna, pequena embora, sempre a olhar para nós do cimo do aparador ou guarda-fatos?  

- Não! Nada disso. Vais à praia, abres um buraco na areia e despejas lá as cinzas. Depois, na maré, vem o mar e reintegras-te na origem do mundo.

Não na do célebre quadro de Gustave Courbet, essa provocadora pintura (que eu chamaria tão só "A Origem"  em vez de “A Origem do Mundo”) porque não é a primordial, embora essencial (arte, sensual, erótica, pornográfica mesmo para quem tem os neurónios em calda).

Refiro -me à outra que ocorreu, alguns milhões de milhões de anos atrás, pouco depois do Big-Bang, se é que posso medir esse tempo original em anos (penso que não).

- Foi isso que fizeste? Já levaste as cinzas da tua mulher?

- Ainda não! Tens razão. Esqueci-me até agora. Prá semana…

O Big-Bang

Gustave Courbet a “A Origem do Mundo

Faro Barros
20080425