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Faro Barros Agostinho Auto-Estrada Escuro


Na Auto-Estrada

A 100 à hora corro pela auto-estrada abaixo... estou a chegar ao Porto, passei a entrada de Espinho, entro na curva... e vejo-os:

estendidos no chão... a escassos 10 metros um do outro, ainda com aquele aspecto flácido e quente, de sorriso e espasmo feliz de quem foi apanhado, subitamente, no decorrer do acto.

Ele grande, de lado, meio curvo para trás, pêlo escuro, castanho, cauda grande, feliz aos amores, morto irremediavelmente.

Ela pequenina, rafeira, um agasalho desfeito no asfalto, ainda feliz, submissa, à espera do fim... que chegou afinal, de outro modo, no camião Volvo.

E todos os dias passo lá, e todos os dias os vejo cada vez mais escuros. cada vez mais sombras, mais integrados na paisagem viva e corrediça da faixa de rodagem, de traços brancos fugidios, e veículos a alta velocidade... para casa... para casa... e dia a dia são cada vez mais manchas no asfalto... e só mancha.

E eu nem sei se será a "brisa" que os vai finalmente varrer, ou a Câmara que os vai raspar à pá, ou se serão somente os pneus que, distraídos na sua pressa, os vão apagar, apagando... apagando... até que a chuva e os ventos os façam esquecer definitivamente,

como de facto aconteceu.

Faro Barros


     
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