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Actualizado em 20030925 Agostinho

 

Encontros

 

 

No café, cedo... para pequeno-almoço em dia de descanso...

No balcão entregam-me o galão e a torrada, que peço todos os domingos.

Pego em tudo para levar para a minha mesa, mas sinto-me travado e cumprimentado.

Rodo e olho: um rapaz jovem (jovem de trinta ou quarenta, segundo os critérios de juventude que nos são impostos agora, e que assimilo do longe dos meus 75).

É simpático, sorridente, visivelmente bem disposto e está vestido a rigor: fato escuro, camisa branca, gravata lisa preta, sem bordados. Olha-me com curiosidade amigável e cumprimenta-me:

- Como vai o Senhor?!

- Bem. Obrigado. E o Senhor? Respondo eu, a tentar adivinhar onde se situa aquela cara conhecida. Puxo pela memória, mas nada...

- oh! Bem...graças a Deus!

E enceto a rotina diária (quase diária) de pegar à linha, nos esconsos da memória, a localização daquele bicho satisfeito (com ele e com a Vida).

- E o trabalho?! (sim, o trabalho!... primeiro isco que costumo lançar, porque em noventa por cento dos casos é o melhor que posso usar).

- Ah! Mudei-me...Sabe... para uma casa mais abaixo, logo a seguir...

Mais abaixo? Coloco-me na descida da Circunvalação (do Porto onde vivo), quase junto à Foz e vejo Oliveira & Ferreirinhas. Sim! Um dos metalúrgicos de certo...subiu sem dúvida, está a viver bem, agora.

Mas... mais abaixo o que há? A Fabrica de Redes?! Não deve ser!... O Castelo do Queijo, e o mar...sujo, mas mar ainda! Não, de certo não é de lá .  

Entretanto ele continuava:

- Tive sorte. Encontrei um condomínio quase ao lado,...

Cá por dentro salto de novo: estou agora no Campo Alegre, meu escritório em condomínio alugado. Meu vizinho, com certeza... esta minha memória! Empregado onde? Guião, Guia-Mor, Computadores?... Ou mais longe, ao lado, na Rua Guerra Junqueiro?

Entretanto o meu interlocutor vai falando, e de modo confuso, misturado com os meus próprios pensamentos, ainda ouço ou penso ouvir:

- Saí de lá e formei a minha própria casa...A Funerária de Lordelo.

E a linha da minha pesca dá um esticão cá dentro, quando a memória morde o isco ao ouvir as palavras-chave do "puzzle".

Revejo-lhe a gravata preta.

Sim... é ele! O eficiente...o dinâmico enterra(dor).

Já enterrou meu Pai e minha Mãe... na geração seguinte sou eu...

À saída, quando sai, deita-me um olhar avaliador, de proprietário final, e acena-me um até breve... com um sorriso amigável.

 

Faro Barros
     
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