Faro Barros    Caim a Bíblia e Saramago RETORNO  
Colocada em 20091108
Desnecessário o Caim de Saramago, para um ateu: nada de novo nos traz.

Alguns trechos parágrafos (que Saramago usa escassamente) muito bons; trechos de bom rir para quem usa a religião com descrição.

Mas não está bem escrito: na forma, no desenvolvimento, nas ideias que apresenta.

Continuo a discordar na falta de parágrafos, na confusão que tem e faz no uso ou não uso de pontos e vírgulas.

Para quê esta mania de ser original e criar uma outra gramática? Diz que é para dar liberdade ao leitor. Neste caso eu penso que é para dar originalidade à escrita. Mas tentem ler o livro em voz alta para um amigo, com a cadência e entoação necessária! Há que rebuscar para ver quem é que está a falar, quem faz o quê.

Não se desmonta no livro, nem sequer se aflora, o esforço desesperado que algumas centenas de cultos religiosos fazem, ano após ano, para acompanharem as descobertas científicas com interpretações descabeladas de textos da Bíblia.

Basta ler a introdução ao livro dos livros para se saber o esforço que a Igreja tem feito para contra arrestar os malefícios que a Ciência tem vindo a fazer aos seus interesses.

Livro sensaborão. Delirante no sexo, mesmo de espanto se nos lembrar que é feito por um ancião de oitenta e muitos anos (e nesta idade cada ano conta por dez).

Não está bem escrito o Caim de Saramago.

Mas é incómodo para um crente que não abdicou do racionalismo.

E obriga os outros, os caracóis da fé, a porem os corninhos ao sol.

Por causa do livro dele tem-se falado muito mais da Igreja nestes últimos dias.

Foi um grande serviço que Saramago fez à Igreja. As livrarias já estão cheias de Bíblias, brancas, imaculadas contra o costume de Bíblias em negro ou "bordeaux" como as minhas, as quais se vendem como batatas fritas.

Mas penso, o que Saramago não diz, que o Antigo testamento da Bíblia é somente um conjunto de relatos de acontecimentos históricos ou ficcionados, sem qualquer relação com o sagrado ou como prova da existência ou não existência de Deus. A Bíblia não é um livro sagrado.

Como muito bem diz Saramago a Bíblia é um livro de maus costumes se for tomado à risca; livro que serviu para a Igreja em séculos anteriores fazer churrascos com descrentes ou incómodos. Churrascos de pessoas vivas (durante a Inquisição), barbaridades não menores do que as que os romanos cometiam com os cristãos no Coliseu.

É um livro com boa ficção, relatos históricos com mais ou menos verdade mas sempre interessantes, que apelaram os artistas para caminhos que por vezes pouco tem a ver com o sagrado ou a verdade. Veja-se, por exemplo, David, Sansão, Moisés...

A Bíblia, é um livro que nos relata acontecimentos de há milénios, e que estudiosos cheios de fé e cultura (muita vezes muita mais fé que cultura), vão tentando colmatar nas suas incongruências e falsidades através de manipulações sucessivas do verbo.

E fazem-no para que a Igreja não perca o domínio sobre os crentes ou as regalias que tem obtido à custa da Bíblia e de Cristo, e as fábricas de ouro (Fátima, Bancos), ouro que retira dos fiéis cheios de fé e de desejos de milagres.

Porque as populações são crentes. Um desejo de estabilidade e segurança na vida, levam-nas à fé; a crer em milagres e a explicar, pelo acontecimento sobrenatural, pelo milagre, aquilo de que se conhecem os efeitos mas não as causas. Porque a Ciência está no começo, somente com uma centenas de anos de actividade nos longos milhares de anos que a humanidade tem lutado por sobreviver e viver.

E até acredito, eu, também cheio de fé, que muitos desses acólitos da Igreja, são honestos, bem-intencionados e acreditam nas suas crenças.

Mas por eles e com eles é que a Igreja tem tentado pôr barreira à ciência e tecnologia.

Como aconteceu com Galileu, como aconteceu com Darwin e ainda hoje em alguns em países (USA) muitos a orbitarem em volta do Criacionismo.

Mas iluminados e inspirados a falarem em nome de Deus houve-os sempre e alguns ainda aparecem de vez em quando. E todos eles se vão diluindo no tempo à medida que os hábitos alimentares se tornam mais saudáveis e os tratamentos neurológicos e a psicoterapia avançam. Porque a Ciência é imparável e é por causa dela e contra ela que a Igreja tenta em manipulações sucessivas apagar os erros que comete e as barbaridades que fez e continua a fazer.

E basta ler a "Introdução Geral" da Bíblia, volume para o terceiro milénio da Encarnação, com o usual "Nihil Obstat" do Frei Joaquim Carreira das Neves e o "Imprimi Potest" do frei João José Costa Guedes da Silva, para se notarem os caminhos ínvios que percorremos ao caminhar pela Bíblia. Assim, diz-se:

"A Sagrada Escritura é o conjunto dos livros escritos por inspiração divina nos quais Deus se revela a si mesmo e nos dá a conhecer o mistério da sua vontade".

E ainda:

Deus falou aos homens através de outros homens por Ele escolhidos para esse Fim.... Desse modo a Palavra de Deus tornou-se linguagem humana sem deixar de ser Palavra de Deus,... e Deus sujeitou-se às limitações e condicionamentos da palavra humana, excepto no erro formal. "

E "Tais condicionamentos são:

Condicionamentos de tempo Os livros da Bíblia são fruto do seu tempo."

Por isso, se quisermos entender a mensagem de Deus, temos de conhecer o tempo e as circunstâncias históricas em que foi escrito cada um deles."

E como são poucos os crentes historiadores, ou razoavelmente versados em história, aqui está um critério simples e eficaz para se começar a separar o trigo do joio entre os leitores.

A Bíblia não é certamente acessível ao lavrador do Minho ou operário siderúrgico dos arredores de Lisboa, embora se vendam muitas por todo o lado.

Há que confiar no senhor abade para a entender…

"
Condicionamentos de espaço Os livros da Bíblia nasceram em vários lugares geográficos, cada qual com o .seu ambiente próprio: uns na Palestina, outros no mundo helénico e. outros no Império Romano. E um livro também é filho do meio em que nasceu."

Este tipo de condicionamento serve para quase tudo e todos explicando muitas barbaridades e costumes...

"Condicionamentos de raça Os livros da Bíblia procedem quase todos
do povo semita, mais concretamente do povo judeu, que tem um modo depensar e de se exprimir muito diferente do nosso. É preciso conhecê-lo, para en
tender a Palavra de Deus."

E como são poucos, à superfície da Terra, os que conhecem bem o povo judeu, não podemos nós outros, a maioria, entender a palavra de Deus.

"Condicionamentos de cultura Os livros da Bíblia são obra de muitos
autores com mentalidade e cultura diferentes, às vezes distanciados entre sipor vários séculos. Tudo isso marcou a Bíblia e deve ser tido em conta poisos autores sagrados, embora escrevessem sob inspiração de Deus, não foram privados da sua personalidade."

Isto é, parece que segundo os doutores da Igreja (e não Deus) Deus inspirou e disse tudo o que lá consta (como se diz adiante) mas lava as suas mãos das asneiras que os seus hagiógrafos disseram, apesar de inspirados.

Mas lê-se mais:

"A Inspiração é o que caracteriza essencialmente distingue a Bíblia de todos os outros livros humanos .Acreditar na Inspiração da Sagrada Escritura foi sempre um dogma de fé para os Judeus e para a Igreja."

"Diz também, a Dei Verbum: "E assim como tudo quanto afirmam os autores inspirados ou hagiógrafos deve ser tido como afirmado pelo Espírito Santo, por isso mesmo se deve aceitar que os livros da Escritura ensinam com certeza, fielmente e sem erro, a verdade que Deus, causa da nossa salvação, quis que fosse consignada nas Sagradas Letras.""

"A verdade da Bíblia é a consequência imediata da Inspiração. Com efeito,se Deus é o autor da Bíblia, se toda ela é obra do Espírito Santo, não pode conter qualquer afirmação que vá contra a verdade e a santidade do mesmo Deus No entanto, não podemos buscar na Bíblia qualquer verdade, mas só a que interessa à salvação do homem, ou seja, a verdade religiosa, e só aquela que Deus causa da nossa salvação, quis que fosse registada nas Escrituras.

"Trata-se de uma verdade não puramente especulativa, mas concreta, que não se dirige apenas à inteligência, mas ao homem todo; uma verdade que é preciso descobrir através dos muitos e variados géneros literários; uma verdade progressiva revelada por etapas, obedecendo à pedagogia de Deus em relação aos homens; uma verdade que está em toda a Bíblia e não apenas num Livro ou num texto isolado. Por isso, a verdade dos textos sagrados só resulta da totalidade da Bíblia, como a santidade da Igreja resulta do conjunto dos baptizados e não de cada um individualmente."

E agora José e Marias? Que fazer a este arrazoado especulativo?

Por um lado eu quero acreditar na Bíblia, pois lá diz:

"A Sagrada Escritura é o conjunto dos livros escritos por inspiração divina nos quais Deus se revela a si mesmo e nos dá a conhecer o mistério da sua vontade".

Mas aparecem os "Condicionamentos" ...

E o Frei Joaquim Carreira das Neves que diz: "Nihil Obstat" o que me leva a crer que a uma Bíblia sem todos aqueles condicionamentos talvez ele dissesse "Nihil Insigne; Nihil Agere" ou qualquer coisa assim...

E além disso tudo aquilo é passado e os tempos agora são outros, pois diz-se lá:

"Os livros da Bíblia são fruto do seu tempo."

E como já disse pouco mais sei do povo judeu (israelitas) de que andaram a ser chacinados pelos alemães na Segunda Guerra Mundial (sim pelos alemães e não só por Hitler!) e agora andam eles a chacinar os hebreus em danos colaterais, com bombas e ataques cirúrgicos. E parece, repito, que:

"Os livros da Bíblia procedem quase todos do povo semita, mais concretamente do povo judeu, que tem um modo de pensar e de se exprimir muito diferente do nosso. É preciso conhecê-lo, para entender a Palavra de Deus."

Mas atendendo a que:

"tudo quanto afirmam os autores inspirados ou hagiógrafos deve ser tido como afirmado pelo Espírito Santo, por isso mesmo se deve aceitar que os livros da Escritura ensinam com certeza, fielmente e sem erro, a verdade que Deus"

E quando já não se pode opor mais, a Igreja associa-se aos acontecimentos, por vezes com resultados burlescos.

Vejam-se as badalações de órgãos electrónicos a encharcarem os ares das aldeias remotas portuguesas...

vejam-se as missas rock...

e as tentativas de confissões via Internet dos padres de Pavia...

para não falar nas bulas papais...


Faro Barros

20091024

RETORNO