Nuno Sobral Textos RETORNO  
O Mar.Figas demónio. O Mar
em 20071129

 

 

A partir de um tema dado por Mário Cláudio numa oficina de escrita em Serralves:

"Descrever na primeira  pessoa as emoções ou/e a reacção de uma pessoa do interior que, aos 70 anos, vê pela primeira vez o Mar", 
Este é o texto: 

 

 

 

 

Figas demónio.

Era a água toda em volta e em riba. E desabava em estrondo de a gente se tremer de medo e de frio. Respingava.
Ora chega e ora arreda: para perto ver e para longe fugir, às arrecuas, fossem e viessem as águas aumentadas.
E isto sempre sem parar, a água a ir e vir sem que ninguém lhe tocasse, arremedando as cabras, ao vê se me tocas, enquanto nós por nós, a correr atrás, logo damos de fugir, ao espirro simultâneo de um rebanho gigante.  

Então me disseram: que sossegasse. Que experimentasse e me acomodasse na friúra, porquanto façam melhor aos ossos aquelas comédias se maior for a delonga de ali ficar.
E também, aos poucos que deixasse a água subir-me para debaixo das saias, santos arrepios aqueles que o doutor encomendava.

Pois nesse entremeio, estando nós já com regozijo de curar as maleitas, as saias arregaçadas, os pés a enterrarem-se a pouco e pouco no lodo, vem de lá tal carga de água que, ou se largam as saias a correr, ou corre connosco o dilúvio, sal que entra pelas narinas adentro com a força de três toiros.

Tenho então a suspeita de que me possa afogar por dentro, entre lá a água por onde entrar. E não demora muito a que pergunte quando e afinal é que aquilo rebenta de vez, as águas mansas apenas por fora.
E o que me dizem faz-me abrolhos no fígado. Em boa verdade, é consenso que o mar ocupa mais mundo que a terra. Se estamos mal? Estaremos pior, um dia.

Que o mar é isto: as cabras do rebanho de água não são cegas, e um animal doente é capaz de estragos de tamanha gravidade, pelo que podemos nós imaginar o resto.

Velhos e velhas e cachopos à mercê das águas furibundas, que avançam às ocultas, mansamente, com um olho cá em cima e o outro nas profundezas, até que um derradeiro trovão se solte lá de dentro e desate a cobrir o que ainda está debaixo dos olhos do altíssimo.

E na agonia das águas será tal estertor que, antes que se alevantem as cabeças, já se meteu no rebuliço toda a gente. E depois quem não morreu da doença morrerá da cura.

 

 

 

Nuno Sobral

 
20071128  

     
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