Aquilino Ribeiro  Textos    RETORNO
A Casa Grande de Romarigães
Bertrand Editora A casa Grande de Romarigães
colocado em 20071011

                                                                                      

A Casa  Grande de Romarigães

últimas duas folhas da crónica romanceada

— Não me meçam as rendas antes de Maio. Até Maio, o milho está prenho. Deita leite. Para estar bom é preciso que absorva a humidade como o papel mata-borrão absorve a tinta. O abade de Padornelo é que a sabia toda. Pegava dos butes molhados, metia-os entre as espigas. Se de manhã os encontrava enxutos, estava em condições de se malhar.

Hilário Barrelas presenciava todo aquele renovamento e, insensivelmente, fugia-lhe o espírito para a conta dos seus anos que, se não lhe pesavam, já não tiniam como o milho seco na peneira. Casa dos enta, fatídica casa!

 Iam e vinham, lês a lês dos campos, as vessadas ruidosas. O próprio babaréu, vozes, cores, tarantela das campainhas, denotava que a sementeira se fazia com esperança. 

O minhoto pela sua alegria e o seu trabalho merece todas as graças de Deus e dos bons génios da terra. O solo é fecundo e a gente olhava para Hilário com os olhos de amenidade. 

Diante das uveiras, trepadas pêlos troncos dos carvalhos, olmos, salgueiros, amieiros, a que deixaram um penacho de milhafre para que vivam e aguentem a carga especiosa, enternecia-se com semelhante sujeição da natureza. 
Que humildade! Quando a vide não marinhasse pelas árvores, estaria adereçada, muito acima do solo, em parreiras esbeltas, sempre encostadas aos muros e aos cômoros, construídas com esteios de pedra ou lousa, finos como varas de pálio. Haviam-na desterrado para a borda da estrada e dos caminhos, do regato e do morro, onde não tirasse o sol nem chupasse o húmus necessário às culturas mimosinhas. 

A vide, afinal de contas, era uma silva. Vivia perfeitamente à desmão, satisfeita com o recanto e as escorralhas da mesa farta. Era uma pobre alegre; as uvas de enforcado, quando maduras, não pareciam mesmo uma cantiga de melro ou de peto-real empoleirados nos ramos à beira dos caminhos?!


Chegou depois Maio, terrível e admirável mês, e Hilário Barreias ia logo de manhãzinha discorrer pela quinta, onde a cada passo a Natureza patenteava seus laboratórios de integração e desintegração, sem o menor rebuço, era só deitar os olhos. Levava nos ombros os seus detestados sessenta anos. 

Contemplando umas coisas e outras, notou ele que uma força misteriosa e criadora, tão surda como rítmica, procedendo a compasso, era contra- balançada por outra que actuava, igualmente às claras, com brusquidão inaudita e destrutiva por excelência.

A vida, isso que se chama vida, não era mais que o momento de equilíbrio, efémero como abrir e cerrar as pálpebras, dos corpos organizados debaixo da acção combinada destas forças. 
Todavia, esse momento ou parêntese representava no panorama universal, com a sua beleza e o seu drama, uma razão suficiente, por assim dizer, para valer a pena o Mundo existir. 

E não deixava de ser espectáculo emocionante assistir às rápidas e estupendas mutações que se efectuavam no seio da Natureza, de todo insensível, neutra em matéria de bem e de mal, sem privilégio de carinhos para ninguém, embora dispensasse a uns seres prerrogativas que parecem obra de parcialidade.

Nada estava parado. Um exemplo eloquente de como desapareciam as coisas à superfície da terra, em poucos anos, às vezes do pé para a mão, estava naquela Quinta do Espinheiro, registada ainda nas escrituras da arrematação de 1891-92 pelo avô Miguel Dantas.

Embora desse a casa em ruína, onde ficava ela que já nem a pedra se lhe via? Restava-lhe o nome em sítio problemático. 

Quanto ao mundo dos seres vivos, decerto que uma fatalidade biológica os condicionava e que o indivíduo só era livre ou só podia julgar-se livre no tablado restrito em que lhe coubera mover-se. 
«Eu quero, mas não mando; determinando-me, se me apetece, não faço mais que submeter-me a forças que se desencadearam para que eu efective esse acto de aparente alvedrio. Acima do meu querer, em círculos aparentemente alheios, desenvolvendo-se concentricamente até a intimidade do ponto, a lei da interdependência universal, com o seu império e coacção, não deixa de tocar-me e pesar na insignificância do meu ser. A certa altura da sua escala, começa ela gradativamente a influir em mim. Tudo no Mundo afinal se concatena e se associa, dando lugar a esta especiosa réstia de alhos que são as coisas diferenciadas no tempo e no espaço.» 

Mata fora as aves cantavam e recantavam. Hilário, cabeça dobrada para a terra, pois lá reside o segredo do mundo que mais imediatamente se propõe à especulação da nossa inteligência, dizia consigo: — Está dito, tudo morre e tudo volta. Reparo que uma força criadora, decerto instilada do Sol, palpita de modo tão intenso que o sentimento da velhice no homem se torna de uma tristeza funérea e confrangedora. 

É pena que se não possa regular a vida como um relógio, andando com os ponteiros para diante e para trás segundo a nossa conveniência. 
Como eu faria da Quinta do Amparo um jardim maravilhoso, a minha estância de contemplo do Mundo, e de Nossa Senhora, esta doce imagem de faces bochechudinhas, minha amiga do coração?! 

A Primavera, tantas vezes rebelde ao calendário, rejuvenesce tudo menos o homem. As leis da ciclidade física assim o mandam. Para o ano, por esta altura, voltarão as aves a cantar. Que chova, que faça um sol radioso, com o mundo vegetal pletórico de seiva ou mais aganado, à triste planta humana é que nada a afasta da sua carreira para a morte. Será ela a obra-prima da Criação ou a pior de todas?

 

Aquilino Ribeiro
Lisboa, Inverno de 1956-57   
últimos parágrafos de A casa Grande de Romarigães