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Memorial de um Passageiro de Bonde
Memorial de um passageiro de Bonde
actualizado em 20071023

 

Tivemos hoje, à ida, um inesperado companheiro de viagem. 
Não sei quando nem como se aboletou no carro; só foi notado ao levantar o voo do chapéu de um cavalheiro velho para ir pousar no seio de uma senhora gorda, copiando a abelha da pequena ode de Anacreonte. A senhora gorda enxotou-o, num gesto de susto muito gracioso, como convinha ao sexo. 
O bicharoco, executando um rápido voo planado, foi aterrar no ombro de um rapaz elegante. Este se apresentava para lhe desfechar um tiro com o dedo médio armado em aríete, quando ele se passou para as costas de um homem distraído, onde se deixou e o deixaram ficar.

Uma vaga de hilaridade desencadeou-se no bonde ao toque das asas daquele forasteiro. Todos lhe acompanhavam as evoluções com sorrisos. E alguns manifestavam na cara uma curiosidade lorpa, como se estivessem diante de um invento completamente novo. Porque essa hilaridade? Problema complicado e escuro. Lembro-me de Bergson, mas não vejo como aplicar ao caso a sua teoria. Até nova ordem, penso que o riso proveio apenas de que o bonde não é veículo para passageiros dessa classe; de que o lugar habitual onde imaginamos o louva-a-deus não é o bonde, não as ruas ladeadas de prédios, calçadas de pedras, atravancadas de carruagem e caminhões, riscadas de fios de metal e pontas de cimento, - e de que os passageiros sentiam, ou melhor, não sentiam, mas tinham necessidade de deixar ver uns aos outros a impressão de desconcerto ou desconveniência que o transviado lhes produzia.


De fato, a mecânica do riso assenta no irreprimível instinto de comunicação próprio do homem. Como o pranto, o riso é uma forma de linguagem, em grande parte inconsciente, destinada a comunicar o incomunicável, a exprimir o inexprimível, o que não se pode, não se sabe, não se quer ou não se pensa exprimir por palavras ou por gestos que lhes equivalham. (Se é certo que rimos e choramos a sós, também é certo que falamos connosco mesmos - e todo pensamento é diálogo interior - sem que por isso possa negar-se o carácter eminentemente, social da linguagem articulada, cujas origens supõem fatalmente troca, relação entre indivíduos, fixação colectiva de sinais sonoros). A mímica do pranto e do riso nasceu provavelmente da necessidade de se solidarizarem e coligarem os ânimos, na horda primeva diante do perigo, da contrariedade ou do benefício comum que iam encontrando pela frente. Seria um elemento de coesão sublimável. Uma circulação rápida de psiquismo colectivo. Com o tempo, isso se teria reflectido e entranhado no indivíduo, até assumir uma sorte de vida inferior, independente. Mas a inconsciência do seu mecanismo inter individual aí está para lhe atestar as origens gregárias. - Somos ovelhas que se vão apenas destacando do rebanho por ligeiras diferenças de pêlo, de dimensões ou de andadura; mas a alma da ovelha pertence mais ao rebanho do que a ela própria.


E se tudo isto estiver errado? Não importa. Para um simples passageiro de bonde, as ideias são como os bilhetes de lotarias: é preciso jogar em muitas, para ter probabilidade de acertar em alguma. E ainda o melhor é não acertar. Criar fama de rico é uma das mais graves maçadas que possam cair sobre quem não necessite de tanto numerário. Responsabilidade social muito pesada. Admiradores. Compromissos. Facadas, amabilidades, invejas, intrigas, amofinações... Que bom travesseiro, a pobreza!

A mim, o que me fez sorrir diante do louva-a-deus foi o riso dos outros, tão saudavelmente natural e estúpido. E foi também o próprio louva-a-deus, natural e bobo como esse riso.

O louva-a-deus é talvez um simples broto que de repente se animou, mexeu as suas folhazinhas tenras mal transformadas em asas, saltou, olhou o mundo em torno com os dois olhitos esbugalhados que se lhe acabavam de pôr - e esqueceu-se do papel que vinha representar. Todo trangalhadanças e todo indeciso, na sua irrepreensível casaquinha verde, é como um mascarado tanto que não tem coragem de ir ao baile nem sabe se há de voltar para casa, e fica a estatelar-se macambúzio pelas esquinas.


Desconfio agora que o louva-a-deus talvez fosse um broche que um artista primitivo, das cavernas ou das palafitas, modelasse no barro verdengo de algum açude, dando-lhe, por inabilidade e por fantasia, uma feição de monstro quimérico e grotesco. Um dia, a senhora Natureza, num momento de nervos, confundindo-o com os seus modelos infelizes e inacabáveis ter-lhe-ia comunicado o sopro da vida, lançando-o fora; "Enfim! sume-te, diabo!"

Outra hipótese. Esse e, com esse, muitos bicharocos parecem ter sido produzidos pela artífice quando ela ainda não podia desprender a imaginação dos liames do concreto. A minhoca teria sido tirada de uma raiz de tubérculo. A serpente, de uma haste de foraminíferos. O besouro foi talvez copiado de um caroço de mamona. O elefante originar-se-ia de uma pedra viajada, do período glaciário, quer por acaso se tivesse vindo suster em cima de outras pedras menores e espaçadas. O lagarto, de um estilhaço de pau nodoso rachado pelo raio. Os peixes não teriam vindo da sugestão de um cardume de folhas polpudas caídas de grossas plantas aquáticas? E o morcego? O morcego foi de certo imitado de um pequeno guarda-chuva esfrangalhado pelo vento. (Contudo, não estou seguro da existência pré-histórica do guarda-chuva).

Só depois, muito depois, a Artista se libertou das formas anteriores para as inventar novas e mais perfeitas - o galo, esse objecto de luxo, o cisne, esse sonho de paz e perfeição, o gato, essa pequena mistura de inocência e de malignidade, a mulher... Ai, a mulher! complexa obra de fantasia terna, cruel e humorística: cisne, galinhola e gata. Rufina, meu amor, eu adivinho que tu és isso tudo!

Tive também um acesso de ternura pelo coitado do meu louva-a-deus, perdido entre paralelepípedos e almas, na cidade poeirenta e dura, longe do fluido verdor fresco das moitas e dos aguaçais. E lembrei-me do meu tempo de menino, lá muito longe (muito longe, muito longe, num outro mundo que já nem sei se existe!), onde o louva-a-deus se conhecia por cavalinho de Nosso Senhor e onde me divertia com outros pequenos a caçá-lo, para o ver fazer a sua oração de mãos postas e para lhe amarrar um cordelinho a uma das patas traseiras.

Vi os agros lavrados, grandes remendos postos ao manto das lombas, com estrias roxas de terra e bordados verdes de planta nova. Vi a vegetação mole e tufada dos grotões por onde a água corria e ofegava, como rapariga surpreendida nua. Vi o empastamento violáceo-azul-fumaça dos morros distantes. Vi o risco sangrento do caminho velho através da solidão virgiliana dos pastios. Senti o cheiro salubre das macegas. Ouvi ranger a velha porteira pesada e pensa, ao pé do valo esboroado, entupido de gravatás, à sombra do pau-d'alho fechado e baixo como uma cabana triste. Ouvi ecos errantes de vozes grossas a chamarem pelo gado, de cantigas de lavadeiras no córrego, do jorro da bica a referver no esqueleto negro da roda de água. E havia no meio de tudo isso, ainda mais distante, mais real e mais irreal, mais vivo e mais sonhado, um toque fremente e forte de buzina de caça, lá pelas barrocas e pelos cerrados desertos, um toque ululante; ansioso, resoluto, que estraçalhava o silêncio com ímpetos heróicos e melancólicos, de desafio e de saudade.

Transpassou-me a alma hereditária de lavrador desenraizado um sentimento agudo de solidão e de incomunicabilidade, e fiquei a olhar para o louva-a-deus na ânsia com que alguém, perdido em terra estrangeira, se poria a amar de longe um compatriota com quem houvesse topado por acaso. (Assim as nossas ternuras vêm sempre acabar em nós mesmos. Aí, senhor duque de la Rochefoucauld!)


Viajava a meu lado um moço atochado de conhecimentos exactos. Disse-me, com certa indignação, que o louva-a-deus, mante réligieuse, é um dos seres mais sinistros da criação viva: a fêmea tem o indelicado costume de devorar o incauto esposo logo no festim de bodas (ao contrário portanto de outras que comem os seus aos bocadinhos, a vida inteira).

Eu já sabia disso pelos Souvenirs do Fabre; mas o moço tinha prazer em me instruir, e eu não lhe quis aguar essa satisfação não de todo inocente, mas tolerável. Não lha tolerei por generosidade, mas porque não queria jogar com ele a cena dos dois pedantes que se travam de sabenças.

Tenho pavor a essa espécie de gente, (aliás estimável, posto que daninha) a essa espécie de gente que vive a verter sabidelas decoradas por todas as juntas, como pipotes de melado em que não se pode pôr o dedo sem sentir o pegajoso das escorrências. São sucursais vivas da tipografia. São jornais parlantes, cheios de reportagens, de ciência feita, mas sem artigos de fundo e sem rodapés literários. A ciência, para eles, é o refugio, desde que se reconheceram anémicos de bom senso, de imaginação, de sensibilidade e privados dessa divina capacidade de simpatia cósmica, que faz as almas verdad.... Mas não vale a pena repetir Nietzsche.

Amadeu Amaral
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